Três perguntas para Carlos Hiran Goes de Souza

foto Simone MascarenhasAmbientado no século XVI, As Farsas dos Moços de Capela (Eldorado), segundo romance de Carlos Hiran Goes de Souza, mostra dois jovens sacristães inocentemente envolvidos em uma trama que tem reflexos na vida brasileira, que mistura uma história de amor impossível, a perseguição ao judaísmo e a livros proibidos pela Igreja, a conversão forçada dos cristãos-novos e a caça às bruxas após o avanço do luteranismo. O lançamento será nesta sexta-feira às 19h na Livraria Eldorado (Rua Conde de Bonfim, 422 loja K – Tijuca – Rio de Janeiro).

SM – Por que se debruçar sobre um dos momentos mais emblemáticos da história de Portugal para escrever este romance?

CHGS – Meu processo de escrita começa pela busca por um tema que seja atrativo para os leitores e também prazeroso para mim. A história portuguesa sempre foi uma referência, não só pela importância de Portugal em determinadas épocas da história mundial, mas, também por todos os seus aspectos regionais, lendários, místicos e religiosos que formataram aquela sociedade. O folclore português é muito rico. Portugal possui uma expressão artística local muito peculiar e interessante. Por tudo isso e por sua beleza geográfica, Portugal é para mim uma fonte de inspiração. Para escrever As Farsas dos Moços de Capela, a busca pelo tema fez a primeira parada num dos capítulos mais bonitos da história portuguesa, apesar de carregado de tragédia, que foi a história de Inês de Castro, a lendária rainha morta. A vida apaixonante de Pedro e Inês, que já rendeu muitos livros, foi o fio condutor inicial.  Daí, defini a trama e as linhas de pesquisa, focado em três pontos centrais: a. Seria uma ficção inserida na História, cerca de 300 anos depois do romance de Inês de Castro e Pedro I; b. Teria três linhas contextuais: a vontade do rei da época em acabar com o mosteiro de Lorvão (onde viviam as descendentes de Inês de Castro), a implantação da Inquisição em Portugal, que se consolidava na Península Ibérica e a forte influência do Catolicismo, num ambiente social conturbado pela corrupção do papado, a reforma protestante, perseguições religiosas, a peste negra e o tráfico de escravos dentre outros fatores que marcaram profundamente o Portugal dominante e poderoso do século XVI; c. A história teria dupla narrativa. Digo que a inspiração foi crescendo na medida que a pesquisa avançou. As ideias se acumulavam a cada nova leitura, visita ou entrevista, e a história ganhou corpo.

SM – Você reconstitui o idioma português daquele período, além de frases e expressões africanas. Como foi a pesquisa para o livro?

CHGS – De fato, minha primeira ousadia foi tentar fidelizar as personagens com suas linguagens originais. Digo ousadia porque estabeleci aquilo como um desafio. Não consegui plenamente, mas deu para rechear o texto com várias expressões regionais e de época, no sentido de diferenciar  narrativas e diálogos. Inicialmente, fiz uma ampla pesquisa bibliográfica histórica e social. Li vários romances portugueses situados na mesma época em que eu estava trabalhando o meu texto, e visitei os lugares que estava descrevendo. Na sequência, levantei depoimentos e opiniões para consolidar ideias e manter o respeito a fatos históricos e/ou religiosos e hábitos comuns da sociedade naquela época. Além disso, a pesquisa eletrônica também foi muito útil. Tive cuidado para não ferir credos e nem personagens históricos. Não era a minha intenção denegrir nenhuma imagem pessoal ou institucional. Minha trama ficcional estaria, sim, inserida num cenário em que o Catolicismo era a grande influência e referência para aquelas pessoas, mas não seria meu papel, enquanto autor, formar juízo de valor. O que está ali referido, enquanto pano de fundo, não é novidade para a história mundial. Eu, apenas, enriqueci a minha história. Para isso, pesquisei comportamentos e imprimi o sentimento religioso e a fé individual em cada personagem, respeitando suas maneiras de ver a religião. Procurei separar fé e religião daquilo que rotulei como farsas. O comportamento teatral (farsa enquanto teatro) e o comportamento escuso, enganador e falso (farsante) das personagens foram tratados de forma a dar ao leitor a atratividade pela trama. Para fechar o texto, fiz algumas pesquisas de opinião direta, através de leituras, prévias à publicação, com pequenos grupos de amigos e familiares que me ajudaram muito a consolidar ideias e até mudar muita coisa, para melhorar o livro.

SM – Como a literatura e a medicina se misturam na sua vida?

capa farsas300dpisCHGS – Digo que escrevo porque fiz medicina. Meu primeiro texto de teatro foi escrito porque guardei uma lição de um professor que dizia que “o melhor pediatra é o pediatra que é pai”. Na época, como eu iniciava minha carreira em pediatria e não tinha filhos, resolvi conhecer o mundo infantil e me encantei pela literatura e teatro para crianças. Foi quando escrevi a peça Andando nas Nuvens. O exercício da medicina me proporcionou a caracterização de diversos personagens e histórias. Exerci por dez anos e depois me dediquei à gestão hospitalar, o que faço atualmente, e aí encontrei uma nova fonte de inspiração. Portanto, a área de saúde se “mistura” na minha vida, na medida em que me mantém alerta para os dramas e mazelas sem me libertar dos sonhos de uma vida melhor. Digo, também, que escrevo porque sou um sonhador. Sou cidadão, defensor do livre pensamento e da vida digna. Sou um apaixonado e crente do amor. Sou um pregador da paz e devoto do meu santo. O que mais poderia caracterizar um sonhador? Em resumo, se ousei por os pés nesse mundo da literatura foi porque primeiro aprendi a andar nas nuvens.

Foto: Simone Mascarenhas

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