Três perguntas para Débora Ferraz

fotodestaquedeboraUm das finalistas ao São Paulo de Literatura, na categoria autor estreante com menos de 40 anos, é o romance de estreia da pernambucana Débora Ferraz, Enquanto Deus não está olhando (Record), que narra a história de Érica, uma jovem artista plástica em busca do pai, que fugiu do hospital que estava internado. O romance não é um estreante em prêmios: foi vencedor do Sesc de Literatura 2014. Aqui, a escritora e jornalista, que publicou seu primeiro livro de contos, Anjos, com apenas 16 anos, fala sobre mais essa surpresa.

SM – Depois de ganhar o prêmio Sesc, foi uma surpresa ser finalista do São Paulo de Literatura?

DF – Sim, foi uma grande surpresa. O fato de ser um livro que saiu por causa do prêmio Sesc já traz implícito algo sobre sua escritura: a ausência de preocupação com a recepção (leitor ou crítica) pois, na maior parte das vezes, o autor apenas manda um monte de originais para o concurso e nada acontece depois disso. No meu caso, pelo menos, foi assim: eu queria testar, saber se aquilo conseguia ir parar entre os finalistas. Agora ver o livro entre os finalistas do Prêmio São Paulo é um espanto reiterado. Nunca, nada apontou para que esse original fosse sequer sair da gaveta.

SM – As reflexões das quais você trata no romance são fruto têm tudo a ver com a vida contemporânea?

DF – O livro partiu de algumas reflexões sobre o nordeste urbano contemporâneo, mas que, claro, naturalmente, são questões que se aplicam à vida contemporânea como um todo. Pois destaca a impossibilidade de apreensão do presente, de dimensionar o instante, dentro do tempo, da possibilidade da morte… No livro há uma personagem que, a partir do desaparecimento do pai, tenta se entender num tempo e num espaço desenraizado. As famílias não deixam uma história, um legado, as árvores genealógicas seguem cheias de vãos, de gente que vai sobrevivendo e desaparecendo pelo mundo. Os personagens se movem entre os instantes eternos da imagem congelada, pompeias da memória, e a única bússola é a própria desorientação sobre passado e futuro.

SM – Enquanto você escrevia, seu pai morreu. Isso mexeu com a construção da história?

DF – Mexeu na maneira como foi escrita, ou no quanto demorou para ser escrita. Mas a ideia do romance, exatamente como ele é hoje, já existia desde 2008 (meu pai morreu em 2009). O que houve foi que, com isso, eu fiquei dois anos parada. Ficou emocionalmente impossível voltar àquilo, houve questões práticas, claro (eu precisei me consolidar na carreira de jornalista, e isso tomava absolutamente todo o meu tempo na redação), mas sobretudo houve o fato de eu não querer fazer do livro um pacote que se encerrasse na minha própria experiência. Demorou dois anos para que a sensação de coisa inacabada me devolvesse à escrita.  Mas creio que a história, a forma como ela seria contada, ou quase tudo o que define o romance já estava ali e seria impossível mudar.

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