Três perguntas para Lucia Murat

Em três atos - diretora Lucia MuratNesta quinta-feira, estreia o novo filme de Lucia Murat, Em três atos. A diretora de Que bom te ver viva e Quase dois irmãos faz desta vez um ensaio poético sobre o corpo e a velhice, a partir de textos da escritora Simone de Beauvoir. Nas telas, as atrizes Nathalia Timberg e Andréa Beltrão e as bailarinas Angel Vianna e Maria Alice Poppe fazem um discurso forte e emocionado sobre ser mulher, sobre o direito de envelhecer, sobre o direito de ser livre.

SM – Por que resolveu partir de Simone de Beauvoir para investigar a situação dos idosos na sociedade?

LM – Na verdade, eu parti do espetáculo de dança e a ideia desde o  inicio era juntar essa abordagem de dois corpos (o de Angel com 85 anos e o de Maria Alice, ainda com o vigor da juventude) com textos sobre a velhice. Simone de Beauvoir era a escolha inevitável pois foi uma escritora que me acompanhou em vários momentos da minha vida. Na adolescência, com O segundo sexo, que era o livro de cabeceira da minha geração; na fase final da ditadura, quando seus livros sobre os sobreviventes da resistência francesa também me ajudaram muito. Finalmente, hoje, quando começo a viver a questão do envelhecimento é ela quem surge de novo com um trabalho extenso sobre essa questão.

SM – Seus filmes são muito pessoais: como essa reflexão sobre a velhice e sobre a dor da morte da mãe estão estruturadas?

LM – Num primeiro momento, tinha pensado em usar apenas os textos e o trabalho de Simone de Beauvoir sobre a velhice. Depois durante a pesquisa me recomendaram um livro que nunca foi publicado no Brasil, Une mort três douce, onde ela escreve sobre a morte da mãe. Ao ler esse livro, que tem um texto extremamente poético, pensei em criar a intelectual em dois momentos da vida: aos 85, refletindo sobre a velhice e a morte, e aos 45 anos, com a dor da perda da mãe.

SM – O mundo virtual parece mais conservador e cheio de preconceitos. Você vê mais sofrimento contra os idosos atualmente?

LM – Em relação à sociedade oriental, onde a velhice era vista como algo a ser admirado pela experiência adquirida, com certeza. Na sociedade ocidental, que  cada vez mais valoriza o corpo e a juventude, não haveria lugar para os velhos. E isso que Simone de Beauvoir analisa tão bem. A questão hoje que se modifica é que a sociedade está também envelhecendo já que a média de vida está subindo. Hoje, a sociedade começa a perceber  que para sobreviver vai ter também de contar com seus velhos produzindo. O que Simone insiste é que a única maneira de sobreviver com dignidade é produzindo. Quanto ao mundo virtual, é complicado, pois me parece que é o fato de ninguém ser responsabilizado pelo que escreve que permite que barbaridades sejam ditas. Ainda falta muito o que legislar. Hoje, por exemplo, meninas que são agredidas nas redes sociais já podem processar seus acusadores. Acho que esse é um caminho.

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