Três perguntas para Tailor Diniz

998456_523969651047651_1945495227_nEscritor e roteirista, com 15 livros publicados – Em linha reta (Grua) foi semifinalista do Prêmio Oceanos no ano passado -, Tailor Diniz resolveu se arriscar na autopublicação. A matéria da capa pode ser comprado em http://www.amazon.com.br/mat%C3%A9ria-da-capa-Tailor-Diniz-ebook/dp/B018KTWCGW/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1450876976&sr=8-1&keywords=tailor+diniz. Aqui, ele fala sobre a nova experiência.

SM – Por que, depois de 15 livros publicados, você resolveu apostar na autopublicação?

TD – Não chego a considerar uma aposta, mas uma experiência. Comecei a pensar mesmo no assunto ao conhecer um kindle, gostar e adquirir um para experimentar. Me adaptei tão bem que passei a usá-lo diariamente para leitura, e essa surpresa positiva me levou a pensar na possibilidade de publicar um livro nesse sistema. Em 2013, estive em Frankfurt para lançar um livro traduzido na Alemanha, Crime na feira do livro, e conheci uma representante da Amazon que me apresentou um programa de autopublicação. À época, não me entusiasmei. Mas agora, como havia me adaptado muito bem ao e-reader deles, como tenho dois livros impressos acertados para publicação e tinha um original acabado, pedindo jogo, decidi experimentar o programa, que é de fácil compreensão, gratuito e até divertido. E não impede, se houver oportunidade, de eu publicar uma versão impressa ou digital da obra, se alguma editora se interessar.

SM – Este não é seu primeiro livro digital. Como você vê o futuro da literatura?

TD – Tenho outros dois livros também em versão digital, Crime na Feira do Livro (Dublinense) e A sobrevivente (Edipucrs). Mas são livros publicados pelas vias tradicionais, por editoras que, a seu critério, os adaptaram para a versão e-book. Minha experiência com a autopublicação é só com A matéria da capa. Faço questão de dizer que é uma experiência porque estou entre aqueles que não negligenciam a figura do editor na relação autor/leitor, que tem o importante papel de filtrar tudo aquilo que é oferecido, tanto na tela do computador como nas mesas das livrarias. Sou um otimista quanto ao futuro da literatura. Apesar da resistência de muita gente ao digital, entre as quais eu me incluía até três meses atrás, o e-book vem, felizmente, para prolongar a vida do livro nas nossas vidas por ainda muitos séculos. Mesmo antes de me adaptar a um leitor digital, sempre dizia que há espaço para todos — não precisamos brigar por isso. Quando comprei o meu, me propus a ler um livro impresso e um e-book, de forma intercalada. Para minha surpresa, quando me dei conta, estava numa proporção de três por um, ao natural, além de ter duplicado meu volume semanal de leitura. Objetivamente, o e-reader não tem defeitos. É leve, pesa menos que um telefone celular, leio horas e horas e não me sinto cansado, pelo contrário, posso carregá-lo no bolso do casaco, levando dentro uma biblioteca inteira, posso ler em pé, sentado, deitado — sem o desconforto do impresso, ainda mais se for um impresso com 500 páginas. Mas, reconheço, existem as questões subjetivas. Também estabeleci regras. Não compro livro digital por mais de R$ 15, que já é um preço alto. Mais que isso é absurdo, não vale a pena. Se ficarmos atentos, há ofertas de livros de grandes autores, do clássico ao contemporâneo, lançamentos ou não, por menos de R$ 10. E ainda me resolve o problema de espaço. Não tenho mais onde acomodar livros na minha casa. Acho que tudo isso vem para somar, só vai ajudar a literatura e os livros a sobrevirem por muito tempo.

capapublicadaSM – A matéria da capa é uma sátira ao jornalismo. Como surgiu este tema?

TD – Alguns renomados veículos de imprensa vivem hoje uma grande fragilidade ética, em que até montagens baratas, tipo das redes sociais, às vezes são usadas para a defesa ferrenha de uma opinião ou de uma causa. Alguns nem disfarçam sua obstinação ideológica, gerando uma confusão sobre o que é o direito e o dever de informar (de prestar um serviço à sociedade) e aquele mero espírito de torcedor de arquibancada em domingo de decisão. Tive a ideia de escrever A matéria da capa quando houve aquela grande polêmica sobre o programa Mais Médicos e a contratação de profissionais cubanos para trabalharem no interior do Brasil. Diante da aceitação do projeto pelas pessoas envolvidas, nos confins do país, quando não havia mais argumentos razoáveis, alguns jornalistas de renome conseguiram chegar ao absurdo de reviver o clima da Guerra Fria, da invasão da Baía dos Porcos e do pré-muro, algo como aquele ex-tenente japonês que viveu três décadas na selva das Filipinas e voltou ao Japão, em final de missão, negando-se a acreditar que a Segunda Guerra havia terminado. A tese era de que os médicos seriam guerrilheiros infiltrados vindos de Cuba, de uma perigosa ilha caindo aos pedaços, para implantar o comunismo no Brasil. Francamente, isso é muito engraçado. Tenho recortes de matérias e colunas de blogueiros conceituados dizendo isso, num momento em que até o presidente dos Estados Unidos se empenhava em restabelecer relações com Cuba. Criei, então, o Cabo Nunes, um ex-taifeiro do Exército e discípulo do Cozinheiro dos Reis [Antonin Carême] que, ao se aposentar e em busca de qualidade de vida, vai viver no interior do Rio Grande do Sul, onde passa os dias entre a preparação de uma iguaria e outra e cultivando um pé de manjericão que, pelo cheiro, lhe permite identificar a direção dos ventos. Leva um quotidiano sem sobressaltos, até descobrir uma greta espacial abandonada por extraterrestres, que estaria servindo de porta de entrada para uma ideologia contaminada pelo mal, pondo em risco o futuro do Brasil. A notícia é um prato cheio para uma renomada revista brasileira que envia ao lugarejo, conhecido como Capinzal da Onça, o seu jornalista investigativo mais renomado. Chegando lá, Hilário Salgado depara com um grupo de estranhos personagens, cujo passado e presente servirão de argamassa para a composição de sua reportagem. Salgado encontra uma fórmula para transformar aquilo tudo numa grande matéria, de acordo com os interesses da revista e fazendo jus à fragilidade ética de seus pauteiros. A obra vem a ser a capa da edição seguinte da revista, sendo também destaque das edições dos jornais diários do fim de semana, sem que se tenha observado a mínima preocupação com a checagem de fontes e — digamos — com a lógica e o absurdo dos fatos relatados.

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