Três perguntas para Rodrigo Maceira

12735822_1160159033994840_227921198_nRedator e professor de Comunicação, Rodrigo Macieira lança seu primeiro livro, Um céu diferente daquele de lá (Oito e Meio). É uma reunião de 16 contos sobre relações familiares. Ou como explica João Anzanello Carrascoza na orelha: “Os protagonistas de uma história renascem em outra, encontram-se, juntam-se e, então, separam-se – pois o que os une, e a nós também, é um passado comum ou o sonho (que nunca se realizará) de estar continuamente juntos.”

SM – Um dos temas principais do seu livro envolve as relações familiares. Sua literatura vem das lembranças?

RM – A lembrança é um ponto de partida, sem dúvida. Um lugar de onde saio sem a preocupação de ser fiel às paisagens e às pessoas que talvez tenham existido ali. No fundo, acho, lembrar é sempre um exercício de ficção. O relato ganha sentido porque organiza uma narrativa que só se fez possível com todas as experiências que vieram depois. Reescrevendo o que teria sido, a lembrança reinventa a vida que aconteceu. No caso de Um céu…, tem sido curioso perceber as pessoas, especialmente as que me conhecem, tentando adivinhar, se é que há tanta diferença, a porção que é fato e a porção que é invenção.

SM – Por que alguns contos remetem a outros, por exemplo, “Vinte e dois anos” e “Dos mails” I e II?

RM – Essa é uma característica de Um céu… que vai se repetir no próximo livro. Sempre gostei de autores que reaproveitam personagens ou situações de texto para texto. De cabeça, penso nos exemplos do Mário de Andrade, no Charles Kiefer e no (Juan Carlos) Onetti. Esse é um movimento do conto que me interessa bastante. Estimula a imaginação do leitor. Costurar os contos com coincidências, descobrindo afinidades que se esclarecem mutuamente, acaba transformando o livro um pouco em cinema. Alguns romances que não são lineares se parecem muito com coletâneas de contos que compartilham algumas das “unidades dramáticas”. Funciona muito na hora de escrever. E também na de ler: no vão que separa dois contos que repetem um personagem ou um lugar, existem milhões de contos por acontecer. Isso, para mim, é a literatura.

SM – O que é a rede Si No Puedo Bailar, No Es Mi Revolución e o que ela tem a ver com a sua escrita?

RM – Si No Puedo Bailar, No Es Mi Revolución aconteceu como uma maneira de viver parte da cultura independente latino-americana, com a proximidade que a internet permitiu. Quando estagiei no Memorial da América Latina e, principalmente, quando morei na Espanha, formei a ideia de que a novidade, em qualquer atividade criativa, poderia se beneficiar da irresponsabilidade diante da tradição. Acho que já acreditei mais nisso, mas, de qualquer forma, foi com essa intenção que a rede fomentou o intercâmbio entre jovens artistas latino-americanos, numa perspectiva que partia do Brasil. Durante um tempo, algumas coisas realmente foram novidade. Hoje, essas conexões são inevitáveis e rotineiras: a música, a literatura ou a ilustração latino-americanas existem na timeline de qualquer pessoa que se interesse pelo assunto. No livro que devo publicar em breve, o diálogo entre a minha escrita e o Si No Puedo Bailar é enorme. São várias as referências a autores ou bandas latino-americanas, particularmente argentinos, e muitos personagens se identificam com ídolos que conheci fazendo a revolución.

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