Três perguntas para Belisa Ribeiro

12705354_10153825296920609_6471371956220589156_nEm Jornal do Brasil – História e memória (Record), a jornalista Belisa Ribeiro registra depoimentos de colegas que, em épocas diferentes, marcaram a trajetória do veículo e contribuíram para torná-lo um dos maiores de seu tempo. Criado há 125 anos para defender a monarquia, passou pela fase popular de jornal de classificados e pelas reformas editoriais que modernizaram a imprensa e descobriu tendências. Hoje, o jornal é exclusivamente digital. A ideia de reviver a trajetória memorável surgiu de um dos encontros dos jotabeninos (entre os quais, orgulhosamente, me incluo), como se chamam os profissionais que lá trabalharam.

SM – Você trabalhou no Jornal do Brasil em momentos bem diferentes. Como foi essa experiência de retornar ao jornal?

BR – Foram momentos completamente diferentes. Quando ingressei no jornal, em 1975, aos 21 anos, era estudante, universitária da PUC-RJ. Entrei como estagiária e consegui ser contratada, logo em seguida, como repórter. Foi um momento muito rico, de aprendizado e encantamento pela profissão. De conscientização política, também. Os colegas me ensinavam não apenas como se fazer uma boa apuração e um bom texto, mas também sobre  ditadura versus democracia, no Brasil e no mundo. Quando retornei, no início dos anos 2000, quando o empresário NelsonTanure havia arrendado a marca da família Brito, havia uma esperança de o jornal ser resgatado, de haver uma volta por cima. Estávamos, todos, apesar de cortes de pessoal, imbuídos em fazer o melhor possível e houve momentos de bom jornalismo, mas o sonhado resgate e a volta por cima não aconteceram e o jornal foi definhando até morrer.

SM – Depois que o JB deixou de ser o grande veículo carioca, o jornalismo mudou com a tecnologia e hoje vive uma grande crise. O que você destaca do jornalismo feito hoje no Brasil?

BR – O JB não foi um veículo carioca. Ele foi o melhor jornal do país, referência do Brasil no exterior. Nada do que é feito hoje se compara ao jornalismo praticado no Jornal do Brasil da “época de ouro”, aquela em que foi dirigido por Alberto Dines, com momentos de destaque também sob a batuta de  Walter Fontoura,  e de Paulo Henrique Amorim, como, por exemplo, o da cobertura das explosões das bombas no Riocentro e o do caso Proconsult, ambos selecionados por mim para capítulos do livro. O jornalismo impresso, no caso dos jornais, vem se aproximando cada vez mais, infelizmente, do tom da internet e só se salva, ainda, por seus bons colunistas e analistas e por repórteres raros, como José Casado e Chico Otavio, para citar dois que ainda representam bem o jornalismo investigativo ao estilo do que se fazia no Jornal do Brasil.

SM – Além resgatar a história do jornal, escrever o livro foi um exercício de saudosismo?

BR – Não. Foi a intenção de não se deixar perder o registro de uma forma de se fazer jornalismo com criatividade, ousadia e coragem. De revelar os bastidores de edições de jornal históricas pelo seu formato e conteúdo. De mostrar que um jornal não muda o mundo, mas caminha na diagonal e pode interferir, como o JB interferiu, na vida social, política e econômica de um país e até do mundo! Uma das histórias que conto mostra que, a partir de uma reportagem denunciando uma reunião de neonazistas em Itatiaia, região serrana do estado do Rio de Janeiro, chegou-se à prisão de um dos mais procurados assassinos de judeus da Segunda Grande Guerra e até à mudança da legislação de crimes contra a humanidade pelo parlamento alemão! No seu conjunto, o livro, acredito, demonstra a  importância da imprensa como um poder necessário no papel de fiscalizador dos demais poderes em uma real democracia.

Foto: Divulgação/ Record

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s