Os livros da vida de Ramon Nunes Mello

Ramon Nunes Mello_por Ricardo Fujii

Depois de São Paulo, o poeta Ramon Nunes Mello lança na próxima segunda-feira a partir das 19h no Rio, na Livraria da Travessa de Ipanema (Rua Visconde de Pirajá, 572) seu terceiro livro, Há um mar no fundo de cada sonho (Aniki/ Verso Brasil). O evento terá leitura de poemas por Ney Matogrosso, Alberto Pucheu e Manoela Sawitski. Ao contrário dos temas urbanos de seus livros anteriores, dessa vez os mundos natural e sobrenatural ganham espaço, compactuando entre si, valorizando outras temporalidades e  um culto às coisas que não estão submetidas ao fácil descarte. Aqui, Ramon fala sobre os livros que marcaram sua vida.

SM – Qual o primeiro livro do qual você tem lembrança?

RNM – A lembrança mais presente de uma “primeira” leitura? O livro Maria vai com as outras, de Sylvia Orthof. Em resumo, a história de uma ovelha chamada Maria que um dia descobre que cada um pode ter o seu próprio caminho.

SM – Que livro mais marcou a sua vida?

RNM – Os livros de poemas do Drummond foram definitivos em minha vida, especialmente a leitura de A rosa do povo, onde está o poema ‘A Flor e Náusea’.

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Uma flor nasceu na rua!
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
E soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

SM – O que você está lendo agora?

RNM –  Neste momento estou lendo os poemas de Adalgisa Nery, cuja obra estou organizando a republicação pela José Olympio Editora, além de estudar no mestrado em literatura brasileira na UFRJ.

Foto: Divulgação/ Ricardo Fujii

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