Três perguntas para Martha Batalha

05232_mPernambucana criada no Rio de Janeiro, a editora e jornalista Martha Batalha estreia como escritora em A vida invisível de Eurídice Gusmão (Companhia das Letras), romance que antes de chegar às livrarias brasileiras já tinha sido vendido para outros países e para o cinema. O livro trata não apenas do personagem-título, uma mulher reprimida mas cheia de ideias, que se casa em meados do século passado, mas também da irmã de Eurídice, Guida, que desapareceu da casa dos pais sem deixar notícias. Para isso, a escritora usa uma narrativa cheia de humor e resgata um estilo de época.

SM – Como você definiria A vida invisível de Eurídice Gusmão: um drama familiar, a redescoberta da protagonista, um reencontro, ou de tudo (e mais) um pouco? 

MB – Talvez como um livro de muitas histórias. Existe a trama principal, que envolve Eurídice e Guida, e muitas outras tramas paralelas, dos personagens que cruzam suas vidas. O dono de uma papelaria e sua mãe dominadora, um empresário que prospera e precisa aprender a ser rico, uma prostituta que se torna babá. Todas as histórias são marcadas pelas impossibilidades da época, causadas por preconceitos e dogma. É um livro que levanta muitas questões – há o machismo que impede Eurídice de realizar seus sonhos, a divisão de classes, presente no relacionamento da empregada com as pessoas da família de Eurídice, a inveja e a constante competição entre as vizinhas do bairro. Quando falo de muitas histórias penso um pouco na estrutura das Mil e uma noites. Procurei envolver o leitor em muitas tramas, tentei seduzi-lo com meus estilo e personagens. Como escritora penso o tempo todo neste “canto da sereia”: o que preciso fazer para enfeitiçar o leitor, para ele não abandonar a leitura.

SM – Nascida e criada na Tijuca, reconheci as características marcantes dos personagens e do cotidiano do bairro carioca, fundamentais no livro. A narrativa seria diferente se não tivesse sido ambientada em grande parte neste local?

MB – Companheira tijucana! Como você bem sabe, não existe nada de extraordinário na Tijuca. É um bairro simples de classe média, que vive à sombra da Zona Sul do Rio. Escolhi a Tijuca porque fui criada no bairro – por pais e avós tijucanos. Eu entendo o lugar, e as pessoas. Mas acho que todas as cidades – do Brasil e do mundo – têm uma, ou muitas Tijucas. As histórias do livro tratam de temas universais, e poderiam se passar em qualquer outro lugar de classe média. Aliás, penso no livro como uma declaração de amor à classe média, com seus hábitos, personagens e rituais (apesar da crítica de costumes, ou também por causa dela). É a minha origem, é o que sou.

14112_mSM – Qual sua expectativa em relação à adaptação para o cinema e para as traduções para outros países, que foram fechadas antes mesmo de o romance sair no Brasil?

MB – Só tem gente fera envolvida. O produtor Rodrigo Teixeira e o diretor Karim Ainouz para o filme, excelentes editoras no resto do mundo. Mas não crio expectativas, na verdade. Fico feliz com o longo voo de Eurídice, mas acho que agora o livro está em outras (e boas mãos). Não quero me envolver no roteiro, por exemplo. Eles vão criar uma outra obra baseada na minha, e precisam da liberdade de fazer o que acharem melhor. Acho incrível pensar que meus personagens vão se transformar nesta outra coisa, nestes outros personagens do cinema, com corpo, fala, casa, tudo. Aí eu fico com um pouco de ciúmes. Porque a imagem da Eurídice do cinema vai se impor aos expectadores, muito mais do que a minha. A Eurídice que eu criei pertence só a mim e a cada leitor individual (são muitas, mas exclusivas); a Eurídice do cinema será só uma, mas de milhares.

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