Três perguntas para Marcos Costa

foto-marcos1Em A história do Brasil para quem tem pressa (Valentina), o mestre e doutor em História Social pela UNESP Marcos Costa faz um resumo do país desde a descoberta, com linguagem acessível e didática. Longe de ser um manual, o livro é uma reflexão que ajuda a buscar alternativas cidadãs.
SM – Dá para resumir o Brasil em menos de 200 páginas?
MC – Não se o objetivo for compreender ou explicar o que o país tem de bom: sua cultura, sua diversidade, seu povo etc. Acho possível sim resumir o Brasil em 200 páginas se o grande eixo temático de qualquer análise, de qualquer pesquisa for aquilo que temos de pior. Se esse eixo temático for o que podemos chamar de projeto de nação – ou a sua falta -, ele é um só desde que o país foi arrendado para uma joint venture de empresários no século XVI até o momento em que o país foi arrendado para uma elite econômica – formada por empreiteiros, construtores e políticos profissionais – no século XXI. Como podemos ver, em cinco séculos nada mudou, de modo que não seria preciso nem 200 páginas, algumas linhas bastariam. Para usar uma analogia da medicina, não é preciso dissecar o cadáver; alguns cortes cirúrgicos bastam para perceber que internamente existem interesses obscuros que mantêm o doente em permanente estado terminal. A lógica é nem deixar morrer e nem se recuperar plenamente; é o remédio e a manutenção do estado terminal do doente que sustenta os interesses escusos.
SM – Neste tempo de crise, o que devemos compreender do passado do país para refletir sobre o nosso futuro?
MC – Temos que compreender que como país ainda nos falta algo essencial: um projeto de nação. Um projeto, como diz a introdução do livro, planejado para durar por gerações e que pairasse acima dos eventuais problemas políticos. Conhecer a história do Brasil é o primeiro passo para que esse projeto seja estabelecido, consiga resistir a eventuais tempestades políticas e siga seu rumo em direção ao estado de bem estar social pelo qual tanto almejamos.
SM – Apesar do título com jeito de manual, não é um livro para preguiçosos?
MC – Penso que o mundo mudou muito com o advento da sociedade da informação. Textos curtos não são necessariamente sinônimos de textos superficiais. É possível fazer uma boa reflexão em poucas palavras. As bibliotecas das universidades estão abarrotadas de teses, dotadas de reflexões profundas sobre os mais diversos assuntos, mas que ninguém lê. A produção do conhecimento só faz sentido se puder ser compartilhado e puder contribuir de alguma forma para a vida das pessoas.  Se nesse formato, nessa linguagem coloquial, informal e popular, o conhecimento estiver  sendo democratizado e chegando até as pessoas, que seja assim. Outro aspecto é que não vejo como um livro para preguiçosos.  Acho o contrário. Um livro como esse, que procura sintetizar ou resumir a história do país, preenche uma lacuna que é um dos nossos problemas mais graves. O livro é voltado para aqueles que não têm o direito à preguiça – para usar uma expressão do revolucionário francês Paul Lafargue – nem direito ao ócio.  A preguiça e o ócio são luxos aos quais podem se dar apenas uma elite que, em sua grande maioria, é subvencionada pelo Estado e, portanto, pelo dinheiro daqueles que só contam com a sua força de trabalho para retirar do mundo a sua sobrevivência. Manuais como este servem então para aqueles que, longe de serem preguiçosos, procuram se informar em meio ao mar de adversidades e da falta de oportunidades que lhes cercam.
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