Três perguntas para Alex Mandarino

alexandre-cor-peqUm brasileiro deixa tudo para trás para se envolver com um grupo internacional secreto que representa os arcanos do tarô. Assim pode ser resumido o thriller literário pop O caminho do Louco (Avec), primeiro volume da trilogia Guerras do Tarot, do carioca Alex Mandarino, com ilustrações de Fred Rubim. Mandarino deixou para trás 12 anos como jornalista de cultura e tecnologia para escrever ficção e fazer música eletrônica. Aqui ele fala um pouco dessa viagem inspirada em RPG, videogames e nos beatniks.

SM – Um brasileiro envolvido com um grupo internacional secreto que mistura magia, ciência, arte e videogames em uma trama que percorre vários países. Como essa ideia surgiu e aonde isso vai dar?

AM – A ideia surgiu de uma tentativa de mesclar em uma só narrativa diversos temas que me interessam, de forma, espero, coesa e que faça sentido. Eu também queria transpor para a narrativa literária o ritmo de outras formas de ficção, como os games, a própria jornada do Louco no tarô e as derivas situacionistas pelos centros urbanos. Uma outra ideia era a criação de um híbrido entre a assim chamada literatura de gênero e os experimentalismos formais e poéticos mais comumente encontrados em autores como os beats, por exemplo. Já o aonde isso vai dar ainda está, de certa forma, em aberto. Com este livro eu tentei dar forma a um universo de personagens que me permitisse contar vários tipos de histórias, em diversas épocas e brincando com os tropos de gêneros diversos, numa tentativa de fundi-los. A possibilidade de expansões foi o que me fascinou em primeiro lugar.

SM – Por que cartas de tarô conduzindo o livro?

AM – Tenho uma relação com tarô já há vários anos, de forma pessoal. Jogo para mim mesmo e minha mãe costumava jogar baralho cigano, às vezes, apenas para ela ou para nós, em casa. O que me fascina nele é a narrativa, a capacidade de contar uma variedade potencialmente infinita de histórias. E, claro, são um caminho aberto (ainda que mutante) até a nossa psiquê, uma estrada de intuições perdidas. Eu acho mesmo que a narrativa é o elemento mais básico da vida humana, o que nos constitui como criaturas. Tudo é composto de narrativa: nossa contagem do tempo, os filmes que assistimos, a forma como contamos como foi o nosso dia quando chegamos em casa, a estruturação de nossas lembranças. O homem provavelmente já estava imerso em narrativas desde antes de descobrir como fazer fogo (e essa descoberta, aliás, como todas as outras, se processou como uma narrativa). E o tarô é uma narrativa por excelência, cheia de curvas, becos, desvios. Também escolhi personagens baseados nos arcanos porque isso me permitiria escrever sobre diferentes tipos de protagonistas. O Tarot do livro tem homens, mulheres, idosos, crianças, gays, negros, árabes, judeus, cristãos, pessoas de todas as classes, nacionalidades, crenças. Isso me permitiu uma grande variedade estilística e de pontos de vista. Além, claro, de tornar a história mais divertida, acho.

caminho_do_louco_capaSM – O caminho do Louco é o primeiro título de uma trilogia. Você já tem os outros dois prontos ou encaminhados? Como foi o processo de pensar os três volumes?

AM – Teria sido um só livro, mas quando cheguei na metade deste O caminho do Louco vi que ele ficaria enorme. Resolvi então dividir, tendo que reestruturar a história para que fizesse sentido após essa mudança. O segundo livro, O Laço do Enforcado, está sendo escrito agora e sairá no ano que vem. O terceiro, A Noite do Julgamento, chega em 2018. São muitos personagens, diferentes arquétipos e locais. Temos André Moire, o Louco, que é um jornalista carioca que chuta o balde e resolve correr o mundo tomando ayahuasca e peyote. François Zantray, o Mago, é um refugiado haitiano que vive em Paris e incorpora Papa Ghede. Pat O’Rourke, a Sacerdotisa, mora numa cabana de pedra no meio de uma floresta escocesa e usa um certo tipo de druidismo sexual e música eletrônica em seus rituais. E por aí segue. Neste primeiro livro também encontramos a Imperatriz, o Imperador, o Carro, o Sol e vários dos arcanos menores. É um híbrido: um thriller literário, um conto fantástico com experimentos formais, um conto de horror subversivo e anarquista, um conto policial recheado de magia do caos e conspirações. A história foi escrita como um ritual de magia do caos, um sigilo com o propósito de animar e curar o leitor. Cresceu de forma orgânica e criou vida própria.

Foto: Divulgação/ Natacha Lopez

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