Três perguntas para Luciana Hidalgo

hidalgoA capital francesa no emblemático ano de 1968 é o pano de fundo de Rio-Paris-Rio (Rocco), novo romance de Luciana Hidalgo, que conta a história de dois exilados da ditadura brasileira. Autora de Literatura da urgência: Lima Barreto no domínio da loucura e Arthur Bispo do Rosário – O senhor do labirinto, ambos vencedores do prêmio Jabuti, e de O passeador, a jornalista e escritora fala aqui sobre o novo livro, a Paris em que viveu por várias épocas e o momento atual do Brasil. Rio-Paris-Rio será lançado nesta quarta-feira, às 19h, na Livraria da Travessa de Ipanema (Rua Visconde de Pirajá, 572 – Rio de Janeiro).

SM – O título, como se fosse um bilhete aéreo, insinua um romance de viagem, mas você volta a um passado ainda não curado do país. Por que resolveu abordar o período da ditadura, com dois brasileiros na capital francesa?

LH – Escolhi esse título exatamente pela ambiguidade. Rio-Paris-Rio me veio um dia como uma certeza: os personagens Maria e Arthur, que escolhem o exílio em Paris para fugir da ditadura no Brasil, não são simples turistas ou imigrantes. São forasteiros, ou mesmo foragidos.  Eles se exilam um no corpo do outro, flanam pela Paris turística e também pela Paris dos boêmios e clochards debaixo das pontes, mas o espectro do autoritarismo no Brasil está sempre com eles, entre eles, onde quer que estejam. Afinal, cada um fugiu do país devido a um motivo diferente, relacionado à ditadura (não vou dizer mais, no risco do spoiler). Então Rio-Paris-Rio é ao mesmo tempo uma viagem e uma rota de fuga; eles sabem, no entanto, intimamente, que um dia terão de voltar ao Brasil. E à medida que o regime militar começa a endurecer, torturar e matar jovens opositores, eles se veem obrigados a se posicionar política e afetivamente.

SM – Você morou muitos anos em Paris. Este livro já vinha se materializando quando você ainda estava por lá?

LH – Sim, sempre quis escrever um livro passado em Paris, pois conheço cada metro quadrado dessa cidade encantatória. Morei lá durante anos, em várias épocas. E por ser uma cidade que pouco muda, com prédios e monumentos que estão nos mesmos locais há séculos, pude juntar a cidade de hoje (onde eu mesma flano) com a cidade dos anos 1960/70 (que não conheci). A arquitetura é praticamente a mesma, o que ajuda bastante nas descrições. Quanto à ideia-base do romance, tem origem na história do meu marido, Jorge Bastos, que viveu os anos 1960/70 na França, num exílio voluntário, justamente para evitar esse espectro. A partir das histórias que ouvi dele e da leitura de uma novela de sua autoria (O minotauro), o livro foi se materializando. Criei então os personagens Maria e Arthur, embalada por histórias reais e ficcionais. Fiz uma pesquisa extensa sobre a ditadura e sobre o Maio de 68, mas no final Rio-Paris-Rio é pura ficção, nada tendo de autoficção.

captura-de-tela-2016-11-08-as-15-10-11SM – Após ler tudo sobre o movimento estudantil de maio de 68 para escrever o livro, você vê algum paralelo com a atual ocupação das escolas brasileiras?

LH – O Maio de 68 foi um movimento que começou na universidade de Nanterre, na periferia de Paris, e acabou explodindo quando universitários dessa faculdade se juntaram a universitários da Sorbonne, no centro de Paris. À luta desses estudantes juntaram-se alunos do ensino médio, bem como trabalhadores em geral. A França parou totalmente, numa greve geral sem precedente. Em Rio-Paris-Rio há dois grandes capítulos em que os personagens participam, à sua maneira, das manifestações dos estudantes franceses nas ruas do Quartier Latin. A semelhança com as ocupações no Brasil existe, a meu ver, devido a esse efeito contagioso, viral. Basta notar que, no início, eram apenas algumas escolas ocupadas, e agora são mais de mil, e já existem dezenas de universidades se unindo ao movimento, sendo que há também uma greve geral marcada para essa semana. Na França de 1968, lutava-se contra a autoridade como um conceito geral, contra o conservadorismo da sociedade da época. No Brasil também se luta contra um conservadorismo que está voltando e nos assombrando, contra essa República Velha que tomou o poder e representa o atraso (em relação às democracias em todo mundo), mas existem aqui reivindicações mais específicas: a recusa total a esse absurdo que é a PEC 241(que congela investimentos em saúde e educação por 20 anos!) e ao projeto medieval que é o Escola sem Partido. Tudo isso no Brasil me faz lembrar muito o Maio de 68, no sentido de que se configura e se agiganta, dia a dia, um movimento deflagrado por estudantes, contra o conservadorismo, contra uma direita que começa a tomar ares de extrema-direita, podendo desaguar num fascismo. E é importantíssimo que a população se manifeste e apoie esses estudantes, pois o Brasil é deles.

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