Os livros da vida de João Luiz Guimarães

joaoluizguimaraesO escritor e jornalista João Luiz Guimarães estreou na literatura vencendo o Prêmio Barco a Vapor de 2015 por O vento de Oalab (SM). O livro, lançado recentemente, tem como protagonista um balão de HQ (o Oalab do título) em uma divertida jornada filosófica, ilustrada por Bruno Nunes. Seu segundo texto infantil, Papo reto & papo curvo, levou outro prêmio, o Off Flip deste ano, e será lançado em 2017. Agora ele já trabalha em seu terceiro título, além de adaptar O vento de Oalab para o teatro. Aqui, ele fala sobre suas leituras favoritas.

SM – Qual o primeiro livro do qual você tem lembrança?

JLG – Minha experiência mais remota com os livros se deu em território duplamente estrangeiro: um exílio temporário de país e língua. Vivia no Canadá com meus pais e descobri, maravilhado, as possibilidades sonoras, plásticas, metafóricas, metafísicas – poéticas, enfim – das palavras e da língua (no caso, ainda do inglês) com o Dr. Seuss – autor infantil fundamental. Um de meus livros prediletos era Horton Hears a Who, que virou um filme de animação e no Brasil foi traduzido como Horton e o Mundo dos Quem. Trata de um elefante que acredita ouvir ruídos numa minúscula partícula de poeira – a qual encerraria todo um minúsculo universo de peculiares seres vivos, com cidades, leis, arquitetura, geografia e história próprias. Horton passa a proteger aquele planeta tão frágil, que estava pousado numa flor, da fúria e da descrença dos outros animais da floresta, que preferiam acreditar apenas no que era visível a olho nu.

SM – Que livro mais marcou a sua vida?

JLG – Na adolescência, me lembro de uma data marcante: eu aos 16 anos, quando senti pela primeira vez aquela vertigem de que não haveria vida suficiente para ler tudo de bom que a literatura produziu. Foi a época em que descobri Kafka, Calvino, Borges, Clarice, Rosa e a poesia de Pessoa, Drummond e João Cabral. Também comecei a prestar mais atenção na literatura descolada dos livros, como as letras de Chico, Gil e Caetano. E a que se dá a ouvir nos palcos: Shakespeare, Pirandello, Brecht, Nelson, Dias Gomes. Talvez, um dos livros mais marcantes de minha adolescência tenha sido A revolução dos bichos, do Orwell. Até hoje me impressiono com aquela estrutura fabular tão simples e, ao mesmo tempo, tão cheia de camadas de sentidos que se desdobram, fazendo uma das críticas mais contundentes ao totalitarismo no século XX.  Também é dessa mesma época o meu encantamento pela “literatura” de não-ficção produzida por alguns de meus heróis particulares: Carl Sagan, Oliver Sacks e Stephen Jay Gould – que me mostraram que a realidade científica pode ser tão maravilhosa quanto a mais tresloucada invenção literária.

SM – O que você está lendo agora?

JLG – No momento, me dedico a ler livros sobre mitologia Greco-Romana, outra de minhas paixões. Em paralelo, estou começando a encarar a Ilíada – após ter me deslumbrado, no ano passado, com a Odisseia. Não são leituras fluidas, tranquilas, mas a travessia vale muito a pena, principalmente com as novas traduções existentes, repletas de fortuna crítica e que buscam preservar o caráter eminentemente oral e musical destas obras, criadas para serem cantadas e declamadas, de forma análoga à literatura de cordel de nossos melhores repentistas nordestinos. Descobri, encantado, que há algo de Suassúnico em Homero e de Homérico em Suassuna. Sendo que o mais bacana é lembrar que, ao contrário do grego, pelo menos de Suassuna temos a certeza de que ele realmente existiu e foi brasileiro. Que honra e que sorte a nossa. Desculpe pela digressão, mas o que é a literatura senão uma grande e intercomunicante digressão – como no sonho de Borges em que o paraíso era uma biblioteca infinita. Aliás, isso me remete novamente à minha infância, quando brincava mentalmente com a ideia de que os títulos das lombadas dos livros de cada biblioteca, se lidos na sequência certa, deveriam contar uma história incrível.

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