Três perguntas para Luciana Walther

assessoria33_mg_3915Mulheres que não ficam sem pilha: como o consumo erótico feminino está transformando vidas, relacionamentos e a sociedade (Mauad X), que acaba de ser lançado, analisa um mercado em franca ascensão, já que as mulheres correspondem a 70% da clientela dos sex shops no país. O livro é uma adaptação da tese de doutorado em Administração pelo Instituto COPPEAD, escola de negócios da UFRJ, da pesquisadora Luciana Walther, que foi orientada por Mirian Goldenberg, Aqui, Luciana conta um pouco sobre os resultados de seus estudos, que já foram apresentados em congressos nacionais e internacionais.

SM – Por que as mulheres são as maiores consumidoras de sex shops no país?

LW – A predominância das mulheres nos sex shops brasileiros reflete uma tendência mundial. No Brasil, 70% da clientela dos sex shops são mulheres. A explicação para isso está na história do sex shop. A primeira loja desse tipo foi criada por Beate Uhse, uma alemã que era piloto de avião e foi impedida de voar durante a Segunda Guerra Mundial. Ela se tornou consultora de venda direta e oferecia produtos variados às mulheres alemãs. Percebendo um alto índice de gravidez indesejada e de abortos, confeccionou um folheto explicando o método contraceptivo conhecido como tabelinha para distribuir a suas clientes, que passaram a procurá-la para aconselhamento sobre relacionamentos. Em seguida, Uhse incluiu entre os produtos que vendia os de finalidade erótica, conhecidos na época como “produtos de higiene marital”. Até que finalmente abriu o primeiro sex shop em 1962. Então, o sex shop foi criado por uma mulher para mulheres, que iam à loja adquirir produtos para aprimorar seus relacionamentos. Porém, mais adiante, empresários de sex shop passaram a oferecer um serviço no interior das lojas que afugentou as consumidoras do sexo feminino: as cabines para masturbação masculina, em que homens assistiam a filmes pornográficos ou a strip-teases privados. Com o surgimento da Internet, da TV a cabo e da pirataria de filmes, a procura por cabines para masturbação declinou. Ao mesmo tempo, os empresários notaram o potencial de consumo das mulheres que iam aos sex shops, mas demonstravam evidente vergonha, ou solicitavam entregas em domicílio para evitar o confronto com aquele ambiente que ainda era muito masculino. Por esse motivo, surgiram nos anos 2000 as butiques eróticas femininas, onde tudo é planejado para a mulher, desde a decoração ao mix de produtos, e onde a entrada de homens é proibida. Isso trouxe a mulher de volta aos sex shops, onde ela não precisa mais sentir vergonha e pode buscar novamente aprimorar a relação e também seu próprio prazer. Fabricantes acompanharam o movimento, criando muitos produtos destinados às mulheres tanto em forma quanto em função. São vibradores esculturais, com design e cores extremamente femininos, que abandonam a visão androcêntrica do prazer da mulher, priorizando o clitóris como órgão gerador de orgasmos. Além disso, a cosmética erótica tem crescido muito no país, oferecendo produtos para uso a dois, destinados às consumidoras que querem apimentar a relação. Os sex shops e os produtos eróticos voltaram a ser planejados para as mulheres, que estão gradativamente adquirindo mais segurança para praticar o consumo erótico.

SM – Você partiu de um filme brasileiro para as entrevistas. De que forma o cinema, e também a literatura (como o gênero erótico que também vem se consolidando), ajudaram a ampliar as discussões sobre esse tema?

LW – Usei o trailer do filme De pernas pro ar como ferramenta projetiva durante entrevistas em profundidade com consumidoras de produtos eróticos. A técnica projetiva facilita a abordagem de temas difíceis porque encoraja o entrevistado a se projetar em personagens. Ao falar de terceiros, ele revela sua própria visão sobre o tema. No início das entrevistas, eu solicitava à consumidora que assistisse ao trailer em um tablet, fingisse ser a roteirista do filme e me contasse, com suas próprias palavras, a história da personagem principal, inventando um final alternativo para a trama. Os objetivos dessa dinâmica eram mostrar que o tema de pesquisa seria tratado de forma descontraída e respeitosa e promover a identificação entre a entrevistada e a personagem. Naquela ocasião, o filme já havia sido assistido por mais de três milhões de brasileiros, o que ajudou a trivializar o consumo erótico no país. Posteriormente, a trilogia Cinquenta tons teve o mesmo efeito mundialmente, mostrando que chicotes, algemas e itens de sadomasoquismo podem fazer parte das práticas consensuais ou das fantasias mentais de pessoas comuns, o que afasta a ideia antiquada de que consumo erótico estaria associado a perversão. No Brasil, a TV Globo atinge mais de 99% dos lares. Um programa como Amor & Sexo da Fernanda Lima tem grande poder para combater os preconceitos associados à sexualidade feminina. Quanto mais se discutir nesses meios de comunicação com grande alcance, e também nos meios formais de educação, o tema sexualidade como algo normal, capaz de gerar autoconhecimento, de elevar a autoestima e de oferecer prazer e bem-estar, mais pessoas, especialmente mulheres, poderão se sentir livres e realizadas.

capaSM – O que mais te surpreendeu ao pesquisar sobre o consumo erótico feminino?

LW – Há muitos estudos sociológicos e antropológicos que descrevem as normas culturais distintas às quais estão sujeitos homens e mulheres na sociedade brasileira. A hierarquia de gêneros neste país dá ao homem muito maior liberdade sexual do que à mulher. O valor do homem ainda é medido pelo número de suas conquistas sexuais, enquanto o da mulher é medido de forma oposta, isto é, pela parcimônia com que ela se entrega aos encontros sexuais. Numa sociedade patriarcal e machista como a brasileira, o tabu e o preconceito contra a sexualidade feminina e, consequentemente, a resistência ao consumo erótico feminino eram de se esperar na pesquisa de campo. Esses fenômenos ficaram claros desde o início das entrevistas. Minhas respondentes descreveram episódios de resistência ao consumo erótico feminino tanto por parte dos homens quanto das mulheres. Homens resistem ao consumo erótico feminino em geral e, especificamente, ao vibrador, porque têm medo de substituição, medo da autonomia sexual das mulheres, medo de não se sentirem provedores do prazer feminino. Já as mulheres, estas podem resistir ao consumo erótico por medo de vício no uso de produtos como o vibrador. Um dos achados de pesquisa que mais me surpreenderam foi a possibilidade de refutar esses medos, que não passam de mitos. Nenhuma consumidora entrevistada para minha pesquisa disse exercer sua sexualidade exclusivamente por meio do vibrador. Portanto, não é necessário que mulheres tenham medo do vício. Todas as entrevistadas enfatizaram a importância do uso de produtos eróticos a dois. Para elas, relacionamentos não são absolutamente substituíveis; ao contrário, são imprescindíveis. Portanto, não é necessário que homens tenham medo de substituição. Consumo erótico pode ser construtivo para as relações, e não destrutivo como os mitos fazem crer. Em sociedades com mais equilíbrio entre os gêneros, esses achados podem não ser surpreendentes. Mas, aqui, minha pesquisa mostrou que esses mitos ainda existem e, ao mesmo tempo, permitiu refutá-los cientificamente.

Foto: Divulgação/ Helena Leão

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s