Os livros da vida de Luís Henrique Pellanda

16833331_10206876661353970_1026240758_oO escritor e jornalista curitibano Luís Henrique Pellanda nos coloca dentro de sua cidade em Detetive à deriva (Arquipélago), com crônicas inspiradas nas ruas e janelas da capital paranaense. Na orelha do livro, Alvaro Costa e Silva, o Marechal, diz que o leitor se torna íntimo de lugares que talvez nunca tenha visitado e afirma: “Esse movimento de sair de casa tem tudo a ver. Ao contrário da tendência atual de transformar o espaço da crônica nos jornais, revistas e sites em tribuna de opinião, Pellanda prefere a rua como lugar de observação e inspiração.” Autor ainda de O macaco ornamental, Nós passaremos em branco e Asa de sereia, aqui ele conta um pouco sobre suas leituras e os caminhos que vem percorrendo.

SM – Qual o primeiro livro do qual você tem lembrança?

LHP – Deve ter sido uma das várias enciclopédias que meus pais, que não vinham de famílias leitoras, compraram para os filhos, no início dos anos 1970. A biblioteca da minha infância era enciclopédica, e não literária. Aprendi a ler nesses livros muito ilustrados sobre zoologia, botânica, geografia. Começou aí. Depois, ainda menino, passei a ler autores como Luis Fernando Verissimo e Sergio Porto, via Círculo do Livro. Os cronistas brasileiros foram a minha “estreia” na literatura. E também os romances policiais, em geral os da Agatha Christie, em papel-jornal, que eu comprava na banquinha diante da igreja do Capão Raso, bairro curitibano onde nasci. Foram esses dois gêneros inaugurais, digamos assim, a crônica e o policial, que juntei ao compor meu livro mais recente, Detetive à deriva.

SM – Que livro mais marcou a sua vida?

LHP – Aos 15 anos, li A montanha mágica, de Thomas Mann, pela primeira vez. Foi um terremoto. Eu vinha de leituras felizes, mas muito românticas, de Sartre, Camus e Kafka, de clássicos antigos, de poetas e prosadores brasileiros da virada do século. E A montanha mágica me desestruturou. Marcou o início da minha fase “adulta” de leitor. Foi realmente uma iniciação, o reconhecimento de uma imensa ignorância pessoal em relação ao mundo, à história, à cultura, às práticas sociais. Mann me ensinou a ler, a reler, a estudar, a pensar todos os lados de uma questão. Ele me ensinou a levar a sério quem discordava de mim. Quanto ao livro em si, ele foi muito importante na época de sua publicação, o período entreguerras na Alemanha, e continua relevante hoje, quase cem anos depois, quando vivemos um novo momento de grande instabilidade política e econômica, de polarização ideológica, de irritação e medo generalizados.

SM – O que você está lendo agora?

LHP – Estou lendo Milênio, do genial catalão Manuel Vázquez Montalbán, último livro da série protagonizada pelo detetive Pepe Carvalho, e que foi publicado em 2004, pouco depois da morte do autor. É um catatau “finíssimo”, sentimental e irônico ao mesmo tempo. Fugindo de assassinos, Carvalho e seu assistente Biscuter dão a volta ao mundo, passando por Itália, Grécia, Egito, Afeganistão, Turquia, Israel, Argentina, Brasil. O giro da dupla — que viaja sob os pseudônimos de Bouvard e Pécuchet — serve de pretexto para a análise de vários imbróglios contemporâneos (com os quais ainda teremos que nos entender): as paixões separatistas, o ódio aos imigrantes e refugiados, a especulação imobiliária, as consequências da globalização, a ascensão de novas formas de fascismo. Aliás, também estou lendo Globalização, democracia e terrorismo, de Eric Hobsbawn, e Medo, reverência, terror, de Carlo Ginzburg, ambos livros de ensaios.

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