Três perguntas para Claudio Bojunga

2017-03-14-PHOTO-00009945Autor de JK – O artista do impossível, o jornalista e escritor Claudio Bojunga está lançando nova biografia, Roquette-Pinto – O corpo a corpo com o Brasil (Leya/ Casa da Palavra). Dessa vez, o retratado é seu avô, o médico, antropólogo e educador Edgard Roquette-Pinto, autor de Rondônia e criador da primeira estação de rádio do Brasil, a Rádio Sociedade, atual MEC. A sessão de autógrafos, na próxima quarta-feira na Livraria da Travessa do Leblon, terá bate-papo às 19h reunindo o autor, o historiador Alberto Venâncio Filho e o jornalista Arthur Dapieve.

SM – De que forma o trabalho de seu avô como médico, pesquisador e antropólogo influenciou na criação da estação de rádio?

CB – No livro explico que a primeira parte de sua vida foi dedicada ao estudo dos brasileiros. Todos os homens do seu tempo, mesmo quando viviam em outra época do ponto de vista da cultura material, como os nambiquaras, que conheceu na expedição da Comissão Rondon de 1912 à Serra do Norte.  Como médico residente frequentou a periferia miserável do Rio dos inícios do século XX. Era consciente do trágico abandono do brasileiro negro por uma elite falsamente republicana.  Como antropólogo, combateu o racismo de boa parte dessa mesma elite intelectual que havia introjetado os preconceitos da era colonial, considerando a miscigenação como degenerescência. Como professor acreditava firmemente que o brasileiro precisava ser educado, não substituído. O drama do Brasil, para ele, havia sido a escravidão, não a mestiçagem, a seu ver um trunfo ignorado. Embora hoje revalorizado pela globalização. Como seu lema era “crer e agir, nunca fiz nada sem crer, crendo nunca deixei de agir”, dedicou-se, em seguida, a educar. Muitos anos da cátedra. A partir dos anos 1920, mediante uma rádio educativa e cultural. A partir dos 30, um cinema educativo com Humberto Mauro. A fé no brasileiro fundamentou o esforço de educação de massa com as novas tecnologias da época.

SM – Qual foi sua maior descoberta durante as pesquisas para escrever a biografia?

CB – A intensidade do seu amor maduro pelo país, seu espírito público e a abrangência de seus interesses intelectuais. Como escreveu Drummond, sempre ornados de um fundo poético. Descobri quando acabei o livro que o Brasil não precisa de heróis, precisa de exemplos. Sobretudo nos dias de hoje, marcados pelo oportunismo e pela rapinagem do bem público.

SM – O lançamento é marcado também pelo centenário de uma obra emblemática de seu avô. Que lições você trouxe de Rondônia para seu livro?

CB – Cito a opinião do etnólogo Luís de Castro Faria sobre este clássico da Coleção Brasiliana: Rondônia foi um marco no estudo dos indígenas (…) De um lado ficaram os historiadores com suas listas de nomes tribais, os tupinólogos com suas etimologias, os indianistas românticos e os eruditos insensíveis; de outro, os que souberam conhecer e compreender o índio, os que foram capazes de estimá-lo. Rondônia assinala de forma brilhante uma mudança radical de atitudes em relação ao índio e, para a etnologia brasileira, o seu significado foi indiscutivelmente maior do que qualquer outra obra de autor estrangeiro, só tardiamente e em âmbito nem mais restrito vulgarizada entre nós.” Acrescento que foi Roquette-Pinto quem propôs chamar de Rondônia a região marcada pelas expedições de Cândido Mariano Rondon.

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