Três perguntas para Ondjaki

Captura de Tela 2017-04-07 às 17.24.13Primeiro romance do escritor angolano Ondjaki, lançado em 2002 – depois de um volume de poesia e outro de contos -, O assobiador ganha da Pallas sua primeira edição brasileira. A narrativa de essência fantástica traz uma pacata aldeia que tem sua rotina alterada com a chegada de um misterioso forasteiro, cujo assobio provoca reações epifânicas em quase todos os moradores. Com mais de 20 títulos, muitos traduzidos para idiomas como francês, espanhol, italiano, alemão, inglês, sérvio, sueco e polonês, Ondjaki venceu vários prêmios, o mais recente, o Prix Littérature-Monde 2016, na categoria literatura não francesa, pelo romance Os transparentes. O assobiador será lançado nesta segunda-feira, às 19h, na Livraria da Travessa de Botafogo (Rua Voluntários da Pátria, 97 – Rio de Janeiro).

SM – Embora tenha vários livros lançados no Brasil, O assobiador chega aqui 15 anos depois de sua publicação. O que você destaca da história desse forasteiro, que modifica a vida de uma pacata cidade, num mundo como o que vivemos hoje?

O – Penso que é um estória sobre emoções, sobre o papel que a sensibilidade joga na nossa vida quotidiana. O mundo da aldeia em nada se parece com o nosso mundo, que é acelerado e louco. Mas há uma dimensão humana que ainda nos pertence: o desejo de sonhar melhor, o desejo de sermos outros, as tentativas de aceitarmos que sentimos mais do que aquilo que nos autorizamos mostrar. É isso que o assobio (do livro) faz, permite às pessoas irem além de barreiras emocionais e sentimentais. Talvez fosse bom, para todos nós, na vida real, cruzarmo-nos com um assobio desses.

SM – Nesta edição, foi acrescentado um capítulo inédito. Você costuma modificar seus textos já publicados?

9788534704984O – Uma modificação tão radical, foi a primeira vez que me aconteceu. Decidi presentear o público brasileiro com esses pequenos diários, notas do autor e de uma personagem, a Dissoxi, que é uma mulher misteriosa e sobre a qual se sabe muito pouco. Eu mesmo sei pouco sobre ela, e ponho-me sempre a imaginar quem seria, para onde ela terá ido após esta aventura naquela aldeia. Foi isso que quis propor, que pudéssemos todos espreitar um pouco das suas anotações, da sua vida secreta, também para que isso me ajude, um dia, a escrever um pequeno livro sobre ela, sobre a sua vida, sobre a aldeia que é o seu lugar de origem. Espero que isso venha a acontecer em breve.

SM – Morando no Brasil, e vivendo diariamente as diferenças do português usado aqui e em Angola, como essas falas vêm interferindo na sua literatura?

O – Não noto interferências do português do Brasil na minha obra. Eu viajo muito, não fico enclausurado aqui no Brasil, portanto tenho permanente contacto com o português de Angola (que é a minha ferramenta de trabalho), também com a língua portuguesa de Portugal e até de outros lugares. Vejo a língua como um grande quintal, com esta diversidade que nos caracteriza, que eu adoro, que acho linda, e que deve continuar a receber contributos vivos de todas as geografias onde se sonha e se vive em língua portuguesa. A beleza da nossa língua é ter essa capacidade de ser a mesma e de ser “outra” todos os dias, em diferentes regiões geográficas mas também em distintas regiões afectivas.

Foto: Divulgação/ Michael Hughes

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