Três perguntas para Carlyle Popp

IMG-20170428-WA0009Catarinense radicado em Curitiba, Carlyle Popp lança seu primeiro romance,  O senhor da minha história (InVerso), um livro sobre a constante busca da própria identidade. O protagonista trafega pela capital paranaense, tendo sua infância marcada por dois episódios: a geada negra de 1975 e a epidemia de meningite. O personagem vive os desafios da adolescência, o primeiro amor e as amizades, em um romance de formação que vai até Madri, Paris e Londres. Advogado e professor, Carlyle Popp coordenou e escreveu nas antologias Instruções à Cortazar: homenagem de cronópios, famas e esperanças e Kakfa: uma metamorfose inspiradora.

SM – Quem é o diretor de teatro da vida do protagonista do romance?

CP – Este é o grande tema do romance: a busca da identidade. Salésio sempre foi seu herói. Um exemplo a ser seguido. Uma vida a reboque do outro. O protagonista não está contente com isto. Deseja mudar, sobretudo depois que passa a acreditar que algo há de errado com seu exemplo. Tudo principia com a inveja, sentimento que pouco a pouco se transforma em ódio, justificado pela decepção que vem a seguir. Ele ainda não sabe, mas passa a procurar defeitos no outro. Sofre com isto. O protagonista descobre que ter um modelo é importante, mas mais importante que isto é ter a si mesmo como paradigma.

Senhor-frente-_capa1SM – O personagem principal tem uma relação com o pintor Piet Mondrian que se reflete na capa do livro. É uma pista para a narrativa?

CP – A descoberta do quadro de Mondrian no consultório de seu médico se dá em uma fase em que o protagonista deseja trabalhar seus problemas, mas sequer acredita que os tem. Momento em que sua alternativa foi tentar esquecer o que o atormentava e simplesmente viver a vida. Viver sem compromissos com o amanhã e da forma mais solta possível. Até mesmo de maneira alienada. Os traços da obra de Mondrian parecem simples,  geométricos. Assemelham-se a algo que, talvez, qualquer um pudesse fazer. O protagonista pensa ao ver o quadro de Mondrian: “… vi na parede um quadro que poderia ter pintado. Geométrico. Branco com um quadrado ao centro. Qualquer um faria, pensei”. Em outra parte, raciocina, novamente no consultoria médico: “E aquele quadro de Mondrian  – tenho um em casa – (…)”. Construir sua própria história, ser protagonista de sua existência é como pintar um quadro de Mondrian, parece fácil, mas é imensamente difícil.

SM – De que forma Franz Kafka e Julio Cortázer, temas de seus livros anteriores, influenciaram sua literatura?

CP – A literatura de ambos tem pela menos um ponto em comum. Ambas se interessam pelo absurdo. Ficcionistas com larga imaginação trazem o incomum, o insólito para dentro de nossa vida. As nossas ações cotidianas são de certa forma absurdas, não todas evidentemente, pois se assim fosse, o mundo seria um caos. Muita maior do que já é, mundo onde supostamente as pessoas agem com racionalidade. O surreal faz parte de nossa vida naquilo que fazemos, pensamos e desejamos. Trazer isto ao cotidiano e demonstrar que o que nos cerca passa muito pelo fora de propósito é um grande mérito destes autores, verdadeiros protagonistas da ficção do século XX. Tento inspirar minha literatura na criatividade de ambos, ainda que prefira Cortázar a Kafka.

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