Amor e morte, com pitadas de filosofia

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Autor de um livro de contos e um romance, Matheus Arcaro está lançando um novo volume de contos, Amortalha (Patuá), com 21 histórias que falam de amor ou de morte – ou as duas coisas juntas. Graduado em Comunicação Social e Filosofia, vai mais no caminho desta última, como mestrando na Unicamp e professor. Também é artista plástico e pós-graduado em História da Arte. Um pouco disso tudo está nos livros, como você confere na entrevista a seguir.

SM – Depois de um romance, você retorna aos contos, em histórias que mostram uma menina com seu cachorro, um casal que se ama sem palavras, uma tentativa inusitada de suicídio. Os personagens se conectam pelo desamparo? 

MA – Assim que publiquei meu primeiro livro, Violeta velha e outras flores (contos), e ele começou a receber críticas positivas, senti-me impelido a testar meu fôlego narrativo. Escrevi, então, o romance O lado imóvel do tempo e me senti satisfeito com o resultado. Agora, retorno ao conto mais maduro e menos preso ao formalismo. Especificamente sobre a sua pergunta: acho que na maioria dos contos, os personagens se conectam, sim, pelo desamparo. Heidegger escreveu que o desamparo é a condição existencial dos seres humanos: estamos “lançados” num mundo sem propósito, sem sentido prévio e, se não quisermos recorrer a consolos metafísicos, temos que enfrentar tal condição. Mas como? Aí Platão responde: com o amor. O amor é o sentimento responsável pela reunião, só ele tem a capacidade de subsidiar a vida, para darmos conta de uma existência absurda: o amor é a condição para vivermos nossa finitude. 

SM – De que forma a filosofia se aproxima da evolução da sua literatura?

MA – Na minha concepção, filosofia não é algo distante do dia-a-dia, fora do mundo. Muito pelo contrário: filosofia e vida são praticamente sinônimos, o que não quer dizer que ela trate de banalidades. Conflitos existenciais, questões profundas sobre o conhecimento, o comportamento, os desejos, as mazelas e as possibilidades humanas são matéria-prima tanto para a filosofia, quanto para a literatura. Mas o produto de ambas é bem diferente; são praticamente idiomas distintos. Digamos que a literatura encena e dramatiza os problemas; veste-os de maneira bem mais excitante que a filosofia. Gosto muito de uma passagem do escritor argentino Ernesto Sabato: “Os seres de carne e osso não podem representar as angústias metafísicas sob o estado de ideias puras: fazem-no sempre encarnando essas ideias”. Concordo. A literatura é o meio mais adequado de mergulharmos na condição humana.

SM – O quanto de jogo de palavras envolve o título do livro, que pode significar morte, mas também o amor?

MA – Um dia, ouvindo a música Pedaço de mim, do Chico Buarque (que, aliás, é mote de um dos contos do livro), o verso “eu não quero levar comigo a mortalha do amor” estremeceu as paredes da minha alma. Percebi que os textos que eu vinha escrevendo nos últimos meses – já tinha uns 12 contos –, de um modo ou de outro, versavam sobre amor e morte. Aí, nos demais contos, procurei seguir essa linha estético-existencial. Neste dia, a partir do verso do Chico, criei a palavra “amortalha” que sintetiza o que há no livro: a simbiose entre amor e morte. Acredito que amor e morte são irmãos e precisam se reconciliar no interior dos seres humanos. Nietzsche, em seu livro Humano, demasiado humano, escreveu: “Com a perspectiva segura da morte, uma deliciosa gota de leviandade poderia ser mesclada a cada vida — mas vocês, estranhas almas de farmacêutico, dela fizeram uma gota de veneno de mau sabor, com que toda a vida se torna repugnante!”A morte é um dado da natureza, não temos como mudar isso. A única coisa que nos resta é amar o fato de sermos mortais, ou seja, aceitarmos tal fardo e vivermos de modo potente o “enquanto isso”. Apenas quando o ser humano aceita sua mortalidade é que ele se torna capaz de amar a eternidade de cada instante.

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