Crônicas que podem ser notícias, que podem ser fábulas, que podem ser poemas de Mariana Ianelli

Foto 2017 Mariana IanelliPoeta, ensaísta e crítica literária, a paulistana Mariana Ianelli reúne em Entre imagens para guardar (Ardotempo) uma seleção de crônicas, gênero que escreve desde 2013, primeiro no site Vida breve e depois na revista eletrônica Rubem. A narrativa que fala de pessoas, de coisas e do mundo tem um tom poético, uma linguagem delicada para falar do cotidiano simples, às vezes árido.

SM – A capa do livro diz que são crônicas, um gênero literário com tom jornalístico, mas as suas têm um forte toque poético. Como você define seus textos?

MI – Nem sempre a crônica tem tom jornalístico, se a gente pensar, por exemplo, num cronista como Paulo Mendes Campos. A crônica pode ser uma janela no meio do dia onde alguém se debruça para olhar alguma coisa, às vezes por nada, só por curiosidade. Pode ser uma história real em tom de fábula. Pode ser a imagem de um quadro, uma cena de filme, um livro. Pode ser uma carta desabusadamente poética para o leitor. Qualquer coisa pode ser notícia numa crônica e a notícia, dentro da crônica, também pode virar metáfora. É aí que a poesia, digamos, se intromete. Às vezes parte de algo muito pessoal mas que é absolutamente familiar para quem está lendo. A crônica é um gênero em que me sinto livre para me deixar levar no embalo de uma frase ritmada. A crônica pode ter a ver com a ocasião da data, com alguma ironia ou melancolia de época, com qualquer coisa em que a gente põe uma atenção depois divaga. Escrevo para a revista Rubem aos sábados e isso também acabei incorporando ao texto, essa sugestão de pausa, esse espírito do sábado. Para mim a crônica é uma espécie de sábado nosso de cada dia, momento de parar um pouco e ter uma experiência poética com o que quer que seja.

SM – Você costuma escrever em um site. A internet tem esse caráter da agilidade, da rapidez, do efêmero, diferente do livro. Você retrabalhou as crônicas?

MI – Algumas crônicas são planejadas, levam tempo, por exemplo, uma que escrevi por ocasião dos 500 anos de Santa Teresa d’Ávila ou nos 130 anos de morte de Emily Dickinson. Mas, fora essas crônicas de calendário, os textos costumam ser curtos, mais concentrados. Nesse caso, a agilidade é importante, é o próprio motor do texto, tem a ver com a maneira como a coisa vai ser dita, tem a ver com ritmo, e esse ritmo em geral vem de primeira. O que depois eu trabalho é uma palavra aqui, uma expressão ali, detalhes.

SM – Como equilibra sua literatura entre o ensaio e a prosa?

MI – De uma maneira ou de outra, tudo se comunica, mesmo com diferenças de abordagem. Num ensaio, o texto é uma conversação de vozes. Na prosa poética é alguma coisa trabalhada desde dentro da palavra, é uma voz própria, mesmo que atravessada por outras vozes. Num caso e no outro, a matéria de interesse, compósita por natureza, contraditória, sensível, humana, é a mesma. É bom ter em mente esse trânsito aberto porque vêm daí grandes achados. Mesmo os erros podem ser magníficos. É nunca perder a liberdade de criar.

Entre imagens para guardar_Capa

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