A poesia além do verso

image002Autor de Impreciso (2011) e À deriva (2005), Omar Salomão traz em Pequenos reparos (José Olympio) poemas que falam do tempo e do lugar, em um trabalho visual cheio de frescor, que mistura também desenhos, fotografias e textos manuscritos, rabiscados, grafitados. “As narrativas vão se entremeando, a poesia pode ir além do verso”, ele diz. O livro foi escrito parte em uma residência artística na ilha de Itaparica, na Bahia, e parte em São Paulo, onde o poeta e artista plástico carioca morou, o que se reflete nos versos e na belíssima capa, do próprio autor. “Toda minha calma vem do mar”, escreve. Confira um dos poemas:

 

o vidro ultrapassa a bala

o vidro transformado em tiro

ultrapassa a bala

o tiro transformado em ar

transformado em risco transformado em vidro

ultrapassa

 

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Essência de forma contínua

bruA natureza e a espiritualidade, enfim, a essência, marcam o novo livro da poeta Bruna Beber. Dividido em três partes (vidádiva, canseios e meu deos), Ladainha (Record) reúne poemas sem título, numerados de forma singular, com números primos (maiores que um e só divisíveis por um ou por eles mesmos). O livro, aliás, inicialmente se chamaria Números primos, mas acabou levando a palavra que usamos para nos referir a falas contínuas, em repetição exaustiva, infinita. Os poemas vão percorrendo o caminho da simplicidade com uma densidade narrativa, e dá para perceber o forte apelo visual em vários deles – Bruna vem trabalhando seus versos com artes plásticas. Oito deles também podem ser conferidos em áudio, em narração que mostra muito da própria Bruna, em http://brunabeber.com.br/portfolio/ladainha/ Nascida em Duque de Caxias, ela é autora de outros cinco títulos de poesia e um infantil, e sua poesia já foi publicada em antologias e sites de vários países, como Alemanha, Argentina e México. Ladainha terá sessão de autógrafos no Rio de Janeiro nesta terça-feira, a partir das 19h, na Livraria da Travessa de Botafogo (Rua Voluntário da Pátria, 97) Conheça um dos poemas:

79.

Poder é perigo

e hoje acordei

rindo

 

Dom é tom

e hoje acordei

rindo

 

Querer é criatura

e hoje acordei

rindo

 

Na cara a boca

na pia o prato

sujos de feijão.

 

 

 

 

Os inéditos e dispersos de Hilda

Captura de Tela 2017-06-21 às 15.58.42Da poesia (Companhia das Letras) reúne toda a obra poética da paulista de Jaú Hilda Hilst, iniciada em Presságio, lançado quando ela tinha 20 anos de idade. Além de poemas que tinham sido publicados em mais de 20 livros, muitos deles em edições independentes e de pequenas tiragens, o volume traz ainda versos inéditos da escritora, cronista e dramaturga. É o mesmo formato de antologia que a editora vem fazendo com outros poetas brasileiros, como Ana Cristina Cesar e Paulo Leminski, que têm um público cativo. Hilda, com uma literatura considerada hermética, ganhou um ar popular em 1990, ao publicar O caderno rosa de Lory Lamby, romance pornográfico narrado por uma criança. Passou a escrever outros romances e poemas de cunho erótico, dizendo estar dando “adeus à literatura séria” em uma tentativa de vender mais e finalmente conquistar o reconhecimento do público. Morou durante boa parte de seus 73 anos cercada de cachorros em Campinas (SP), na Casa do Sol, sítio que hoje abriga o Instituto Hilda Hilst. O livro traz ainda uma fortuna crítica, com posfácio de Victor Heringer, carta de Caio Fernando Abreu para Hilda, dois trechos de Lygia Fagundes Telles sobre a amiga e uma entrevista a Vilma Arêas e a Berta Waldman, publicada no Jornal do Brasil em 1989. Confira um dos poemas inéditos do livro:

Não vou morrer. Há construções

Grafias, mandalas, atalhos

A percorrer. Há liames, pontes,

Consanguinidade.

E tantas coisas tão distantes

E tão perto de mim

 

Que hei de passar milênios

A separar o equidistante.

Há teu corpo. E tua boca

A me dizer: vive. Ama-me.

Persegue-me. E com tantas delongas

Como posso ser uma e ser tão breve?

Pensando o mundo na poesia

Laminário_CAPACom 28 livros publicados, entre romances, contos, ensaios e literatura para o público infanto-juvenil, a premiada escritora, professora e tradutora Margarida Patriota lança seu primeiro título de poesia, Laminário (7 Letras). São 102 poemas curtos, nos quais ela mostra domínio sobre a linguagem e transita entre diversos temas. “Penso o mundo – penso, o coração nas mãos”, escreve em “O vão pensar”. Nos versos, reflete sobre a calmaria de um voo, a força dos terremotos, a sensação de uma bala perdida ou a materialidade de um modelo vivo. Além de escrever, há 20 anos Margarida apresenta o programa Autores & Livros, na Rádio Senado Federal, onde entrevista diversos escritores, de Jorge Amado a João Ubaldo Ribeiro. Confira um dos poemas do livro:

Rock de pioneiro

Desbravei o Planalto Central

Num caminhão de retirantes

Sem capital inicial

 

Anos de labuta e estudo

Alçaram-me a um patamar

Acima da plebe rude

 

Tão logo pude sacar

Meu fundo de garantia

Comprei uma chácara amena

 

Onde a saudade das raízes rurais

Afasta-me de mais a mais

Da legião urbana

margarida (2)

Na simplicidade do vento

 

se o vento diz-2a ed_capa-em baixaO carioca José Fernando Guedes traz uma visão muito particular da vida em Se o vento diz (Imprimatur), seu primeiro livro de poesia. Neurocirurgião e professor de neurocirurgia, acostumado a salvar pacientes, ou melhor, reparar a ‘morada da alma’ deles, Guedes reflete nos versos a simplicidade das coisas, a água que ferve para o café, um azulejo rachado, a foto da mãe jovem, um sofá velho. Versos que estão a um sopro. Na apresentação, o poeta Adriano Espínola diz que “o autor, apesar da sólida formação científica, entrega-se aqui ao não-saber da poesia, cujo desvelamento deambulante é dado não só pelo vento mas também pelo “coração, ave migratória”..” José Fernando Guedes está escrevendo um romance. Confira um dos poemas de Se o vento diz:

Reencarnação                                                          

Se ao voltar, se eu voltar,

Quero voltar passarinho.

Mesmo pelos homens caçado

E tendo pela chuva destroçado o ninho.

 

Mas voarei à direita e à esquerda

Acima, abaixo, ao lado e além

Sem prestar contas a chefe ou superior

Somente ao céu e a mais ninguém.

Novos e novíssimos unidos pela poesia

14070_ggDepois de organizar uma antologia de haicais (Haicai do Brasil) e outra de poemas voltada para crianças (Antologia ilustrada da poesia brasileira), a cantora e compositora Adriana Calcanhotto assina um volume em que reúne versos de novos poetas brasileiros da atualidade. Leitora assídua da poesia contemporânea, ela selecionou 42 poetas nascidos no Brasil entre 1973 e 1990 para criar uma antologia “pessoal, intransferível, autoral, ou o contrário” em É agora como nunca – Antologia incompleta da poesia contemporânea brasileira (Companhia das Letras). Com humor e melancolia, os versos formam um panorama vibrante e múltiplo da poesia atual — espalhada em saraus, blogs e também livros. Adriana Calcanhotto tem parcerias musicais com nomes como Waly Salomão, Augusto de Campos e Antonio Cicero. No ano passado, teve suas próprias letras reunidas por Eucanaã Ferraz no livro Pra que é que serve uma canção como essa? Confira dois poemas da antologia:

 

Carrossel, de Ana Salek

de manhã na

praia eles combinam

o que farão à noite de

noite na festa eles

combinam de ir à

praia amanhã

 

O letreiro, de Josoaldo Lima Rêgo

Às duas da manhã

vejo que está apagado

Talvez não,

uma cinza

reluz

no olho

da avenida

que gira

em torno do próprio

enigma

Entre desejos e possibilidades

Captura de Tela 2017-04-13 às 09.38.35(Des)nu(do) (Ibis Libris), estreia de Thássio G. Ferreira, traz versos sofisticados e um pouco herméticos sobre temas como o tempo, os silêncios, o próprio fazer poético, as sensações e imagens despertadas pelo contato com a natureza e os encontros e desencontros nos relacionamentos, entre outros. O erotismo do título e da capa percorre todo o livro, que tem prefácio de Igor Fagundes, poeta, ensaísta, doutor em poética e professor da UFRJ.  Graduado em Direito, Thássio Ferreira trabalha no apoio a projetos de preservação da Floresta Amazônica e desenvolvimento socioeconômico da Amazônia Legal. Como escritor, participou de antologias de contos como Entre Amigos (Sinna) e Prêmio VIP de Literatura (A.R. Publisher 2016), entre outras. Alguns de seus poemas foram publicados em revistas literárias virtuais como Germina e Philos. Confira um dos poemas:

Desembaraço

Dispo-me, o mais que posso,

de minhas máscaras,

meus temas,

minhas teses de si

e de mim mesmo.

E simples sou.

Sou em momento

um desembaraço.