Poemas que se interligam como em um disco

Captura de Tela 2018-03-26 às 10.16.00As referências musicais já começam pelo título: Baião de 2 (7 Letras). O livro reúne poemas de Leoni e Mauro Santa Cecília, parceiros que vêm promovendo oficinas de poesia permeadas pelas vivências musicais dos autores-compositores. O primeiro, conhecido desde os anos 1980, como integrante do Kid Abelha. O segundo, principalmente pela letra de Por você, gravada nos anos 1990 pelo Barão Vermelho mas que já foi parar até em comerciais de tevê. No livro, os dois apresentam poemas que se interligam e que só são creditados no final. Interessante tentar adivinhar na leitura quem escreveu qual verso. Há algumas pistas, como “o gozo de um espanto/ para as próximas letras” ou “O poema fugiu de mim/ nos camarins,” mas alguns parecem mesmo ter sido feitos a dois, como na música. Se um faz o poema “Jazz”, o outro responde com “Blues”, e a imagem das “águas de um fio d’ água” passa de um para o outro. Poderia ser um velho LP, com dois lados distintos, mas assim como os temas dos nosso dias, Leoni e Mauro Santa Cecília estão aqui e agora para ser lidos de forma compartilhada, enriquecendo a experiência do leitor.

Anúncios

Poemas quase como um diário

Captura de Tela 2018-01-31 às 09.59.21Décimo quarto livro da poeta Fernanda Oliveira, No meio do lado (Imprimatur) reúne poemas curtíssimos. São registros de pensamentos que por vezes podem ter uma única linha, mas revelam doces facetas do cotidiano. O tema que une todos os versos é o amor – a procura, a falta, o mergulho, a emoção. Não há títulos, os poemas vão se encadeando quase como um diário ou uma seleção de aforismos cheios de musicalidade, delicadeza e concisão. Confira três dos poemas do livro:

Por que eu não olhei na hora?

Porque eu não quis ver

Eu queria aquela hora, só.

__________________________

A vida é uma troca

Trocar e não trocar, na hora de um e de outro.

__________________________

Uma conversa é boa

Quando consegue escutar não o que se diz

Mas o som da voz.

Resgatado primeiro livro de poeta aclamada por Machado de Assis

Capa NebulosasNascida em São João da Barra (RJ) em 1852, primeira mulher a atuar como profissional de imprensa no país, colaborando com diversos jornais, Narcisa Amália também foi tradutora de contos e ensaios de autores franceses. A Gradiva, editora que agora se relança no Rio de Janeiro após três anos de atuação em Porto Alegre, e que tem como missão publicar escritores esgotados ou inéditos, traz um pouco da fascinante obra desta republicana e abolicionista, defensora dos direitos femininos, em Nebulosas, seu único livro de poesia. A publicação de seus 44 poemas, em 1872, pela editora Garnier, foi celebrada por Machado de Assis e pelo Imperador D. Pedro II. “A leitura das Nebulosas causou-me a este respeito excelente impressão. Achei uma poetisa, dotada de sentimento verdadeiro e real inspiração, a espaços de muito vigor, reinando em todo o livro um ar de sinceridade e modéstia que encanta, e todos estes predicados juntos, e os mais que lhe notar a crítica, é certo que não são comuns a todas as cultoras de poesia”, escreveu Machado, no jornal carioca Semana Illustrada, lembrando que Narcisa Amália era a primeira poeta cuja edição foi bancada pela própria editora, e não pela autora, o que era comum na época. Nebulosas é o segundo volume da coleção Illuminatio, que busca resgatar escritores dos dois últimos séculos que caíram no esquecimento. O livro, em coedição com a Fundação Biblioteca Nacional, resgata o prefácio do escritor Pessanha Póvoa, da primeira edição, e conta ainda com apresentação e posfácio da doutora em Teoria da Literatura Anna Faedrich. Confira um dos poemas:

 

Sadness 

 

Meu anjo inspirador não tem nas faces

As tintas coralíneas  da manhã;

Nem tem nos lábios as canções vivaces

          Da cabocla pagã!

 

Não lhe pesa na fronte deslumbrante

Coroa de esplendor e maravilhas,

Nem rouba ao nevoeiro flutuante

         As nítidas mantilhas.

 

Meu anjo inspirador é frio e triste

Como o sol que enrubesce o céu polar!

Trai-lhe o semblante pálido – do antiste

         O acerbo meditar!

 

Traz na cabeça estema de saudades,

Tem no lânguido olhar a morbideza;

Veste a clâmide eril das tempestades,

         E chama-se – Tristeza!…

 

A poesia além do verso

image002Autor de Impreciso (2011) e À deriva (2005), Omar Salomão traz em Pequenos reparos (José Olympio) poemas que falam do tempo e do lugar, em um trabalho visual cheio de frescor, que mistura também desenhos, fotografias e textos manuscritos, rabiscados, grafitados. “As narrativas vão se entremeando, a poesia pode ir além do verso”, ele diz. O livro foi escrito parte em uma residência artística na ilha de Itaparica, na Bahia, e parte em São Paulo, onde o poeta e artista plástico carioca morou, o que se reflete nos versos e na belíssima capa, do próprio autor. “Toda minha calma vem do mar”, escreve. Confira um dos poemas:

 

o vidro ultrapassa a bala

o vidro transformado em tiro

ultrapassa a bala

o tiro transformado em ar

transformado em risco transformado em vidro

ultrapassa

 

Essência de forma contínua

bruA natureza e a espiritualidade, enfim, a essência, marcam o novo livro da poeta Bruna Beber. Dividido em três partes (vidádiva, canseios e meu deos), Ladainha (Record) reúne poemas sem título, numerados de forma singular, com números primos (maiores que um e só divisíveis por um ou por eles mesmos). O livro, aliás, inicialmente se chamaria Números primos, mas acabou levando a palavra que usamos para nos referir a falas contínuas, em repetição exaustiva, infinita. Os poemas vão percorrendo o caminho da simplicidade com uma densidade narrativa, e dá para perceber o forte apelo visual em vários deles – Bruna vem trabalhando seus versos com artes plásticas. Oito deles também podem ser conferidos em áudio, em narração que mostra muito da própria Bruna, em http://brunabeber.com.br/portfolio/ladainha/ Nascida em Duque de Caxias, ela é autora de outros cinco títulos de poesia e um infantil, e sua poesia já foi publicada em antologias e sites de vários países, como Alemanha, Argentina e México. Ladainha terá sessão de autógrafos no Rio de Janeiro nesta terça-feira, a partir das 19h, na Livraria da Travessa de Botafogo (Rua Voluntário da Pátria, 97) Conheça um dos poemas:

79.

Poder é perigo

e hoje acordei

rindo

 

Dom é tom

e hoje acordei

rindo

 

Querer é criatura

e hoje acordei

rindo

 

Na cara a boca

na pia o prato

sujos de feijão.

 

 

 

 

Os inéditos e dispersos de Hilda

Captura de Tela 2017-06-21 às 15.58.42Da poesia (Companhia das Letras) reúne toda a obra poética da paulista de Jaú Hilda Hilst, iniciada em Presságio, lançado quando ela tinha 20 anos de idade. Além de poemas que tinham sido publicados em mais de 20 livros, muitos deles em edições independentes e de pequenas tiragens, o volume traz ainda versos inéditos da escritora, cronista e dramaturga. É o mesmo formato de antologia que a editora vem fazendo com outros poetas brasileiros, como Ana Cristina Cesar e Paulo Leminski, que têm um público cativo. Hilda, com uma literatura considerada hermética, ganhou um ar popular em 1990, ao publicar O caderno rosa de Lory Lamby, romance pornográfico narrado por uma criança. Passou a escrever outros romances e poemas de cunho erótico, dizendo estar dando “adeus à literatura séria” em uma tentativa de vender mais e finalmente conquistar o reconhecimento do público. Morou durante boa parte de seus 73 anos cercada de cachorros em Campinas (SP), na Casa do Sol, sítio que hoje abriga o Instituto Hilda Hilst. O livro traz ainda uma fortuna crítica, com posfácio de Victor Heringer, carta de Caio Fernando Abreu para Hilda, dois trechos de Lygia Fagundes Telles sobre a amiga e uma entrevista a Vilma Arêas e a Berta Waldman, publicada no Jornal do Brasil em 1989. Confira um dos poemas inéditos do livro:

Não vou morrer. Há construções

Grafias, mandalas, atalhos

A percorrer. Há liames, pontes,

Consanguinidade.

E tantas coisas tão distantes

E tão perto de mim

 

Que hei de passar milênios

A separar o equidistante.

Há teu corpo. E tua boca

A me dizer: vive. Ama-me.

Persegue-me. E com tantas delongas

Como posso ser uma e ser tão breve?

Pensando o mundo na poesia

Laminário_CAPACom 28 livros publicados, entre romances, contos, ensaios e literatura para o público infanto-juvenil, a premiada escritora, professora e tradutora Margarida Patriota lança seu primeiro título de poesia, Laminário (7 Letras). São 102 poemas curtos, nos quais ela mostra domínio sobre a linguagem e transita entre diversos temas. “Penso o mundo – penso, o coração nas mãos”, escreve em “O vão pensar”. Nos versos, reflete sobre a calmaria de um voo, a força dos terremotos, a sensação de uma bala perdida ou a materialidade de um modelo vivo. Além de escrever, há 20 anos Margarida apresenta o programa Autores & Livros, na Rádio Senado Federal, onde entrevista diversos escritores, de Jorge Amado a João Ubaldo Ribeiro. Confira um dos poemas do livro:

Rock de pioneiro

Desbravei o Planalto Central

Num caminhão de retirantes

Sem capital inicial

 

Anos de labuta e estudo

Alçaram-me a um patamar

Acima da plebe rude

 

Tão logo pude sacar

Meu fundo de garantia

Comprei uma chácara amena

 

Onde a saudade das raízes rurais

Afasta-me de mais a mais

Da legião urbana

margarida (2)