Três perguntas para Lucas Viriato

Lucas Freitas_Foto Ulisses DumasUm grande sarau às 16h inaugura neste sábado, na Caixa Cultural do Rio de Janeiro (Av. Almirante Barroso, 25 – Centro), a exposição Poesia Agora. Criada para o Museu da Língua Portuguesa em 2015, exibe em seis salas trabalhos dos principais poetas em atividade no Brasil. A curadoria é de Lucas Viriato, criador do jornal de literatura Plástico bolha. A mostra, que pode ser conferida até 6 de agosto, de terça a domingo das 10h às 21h, com entrada franca, traz seis salas, com espaços interativos para os visitantes arriscarem seus próprios poemas. O espaço Poesia de rua reúne fotos tiradas pelo público, que poderão ser enviadas ao e-mail participepoesiaagora@gmail.com ou postadas nas redes socias em modo público com a hashtag #PoesiaAgora.

SM – Como foi a seleção para reunir trabalhos de mais de 500 poetas brasileiros e estrangeiros?

LV – Isso é um desdobramento natural da minha própria trajetória na literatura. Mas é claro que eu trabalhei com uma boa equipe, com pessoas que entendem muito de poesia, sobretudo a Yassu Noguchi. Fora isso, também contamos com a ajuda de pessoas de outros estados, que nos ajudaram a indicar poetas. Pessoas como Eduardo Lacerda, de São Paulo, Thiago Lobão, na Bahia, e Otávio Campos, em Juiz de Fora. Ou seja, poetas e editores que nos ajudaram a expandir a rede que já conhecíamos. Assim, pudemos sair um pouco do eixo Rio-São Paulo e trazer poetas de outras paragens para a exposição. Levantamos vários textos de cada autor, e tentamos escolher aquele que melhor se adequava ao conjunto da exposição. Foi uma tarefa prazerosa, porém muito trabalhosa. Mas no final valeu muito a pena.

SM – Além de mapear o cenário da poesia contemporânea, a exposição busca inspirar o público a criar seus próprios versos. Como tem sido a receptividade da mostra?

LV – A receptividade da mostra tem sido maravilhosa. Em São Paulo, fomos vistos por quase duzentas mil pessoas, e em Salvador, por mais de cinco mil. Só nos desafios poéticos de Salvador, recebemos quase 500 poemas. Os livros da nossa sala de leitura e escrita começam vazios e terminam abarrotados de poemas. Acho que o público se encanta com a proposta de liberdade de escrita da exposição. E foi exatamente essa a ideia que eu e André Cortez, o cenógrafo, quisemos passar: um espaço aberto para a criação. Agora no Rio, esperamos uma resposta ainda mais bacana, pois uma boa parte dos poetas da exposição naturalmente é da cidade. E a nossa página no Facebook não para de receber novos visitantes, querendo saber mais sobre o projeto.

SM – Poesia agora é um desdobramento do que você vem fazendo no Plástico bolha?

LV – Sim. Por um lado, os papéis de editor e curador se misturam, não deixa de ser um grande trabalho de pesquisa poética de formação de um corpus de poesia contemporânea em português. Estamos agora fechando a edição 38 do jornal, especial para o Poesia Agora no Rio. Nas últimas edições do jornal, temos trazido muito do conteúdo da exposição. É engraçado, pois representa uma “volta”: a pesquisa poética começa com o jornal, se desdobra em exposição, e retorna com o seu conteúdo para o jornal. A ideia não é que o trabalho seja totalizante, seria impossível mapear todos os poetas. No entanto, mantemos a pesquisa sempre em expansão, tentando manter os olhos e os ouvidos abertos à boa poesia.

Fotos: Divulgação/ Ulisses Dumas

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Três perguntas para Ilana Pogrebinschi

DSC02025 (3)Ilana Pogrebinschi ministra no início de junho o curso Formação de Contadores de História no Espaço Cultural Lago de Histórias, no Rio de Janeiro. Uma das fundadoras da Cia. de Teatro Atores de Laura, com diversos espetáculos premiados, ela usa suas experiência em exercícios práticos para desenvolver no contador a sintonia individual e em grupo, entre outras habilidades.

SM – Em tempos em que a tecnologia é tão forte, como fazer com que as crianças sejam seduzidas pela tradição de contar histórias?

IP – Ouvir e contar histórias fazem parte de algo muito natural, está em nossa essência como humanidade. Então não é preciso seduzi- las. Quando contamos com todo nosso coração,  tanto crianças como jovens ou adultos se encantam. Mesmo a gente não se imaginando mais sem a tecnologia, um dia já vivemos sem ela. Mas sem histórias… como viver?

SM – O que é mais importante para uma contação ser bem-sucedida?

IP – O contador deve escolher um repertório que se entusiasme e que se adeque bem à faixa etária, evento e local que ele vai encontrar. Mas o mais importante é que ele perceba que não se trata de uma apresentação, mas de um encontro. Ou seja, que não está separado daqueles que irão escutá-lo, mas que estão juntos participando de algo belo e importante. Uma vez escutei de uma contadora portuguesa que, quando ela vê as crianças que vão ouvir suas histórias, ela se imagina como uma mulher grávida onde todas aquelas crianças estão dentro de sua barriga!

SM – Como será o curso que você vai ministrar no Espaço Cultural Lago de Histórias?

IP – A Formação é composta de 5 módulos, encontro individual e da conclusão do curso, num total de 52 horas/aula. Os módulos podem ser feitos na ordem de preferência do participante, têm certificados individuais e apostilas. E cada módulo tem um conteúdo diferente. O primeiro, por exemplo, é A Preparação do Contador, onde serão  trabalhados exercícios práticos para que cada participante desenvolva a atenção, a presença, a escuta interna e externa, a coordenação, a contemplação, a musicalidade, a confiança e a sintonia, individual e grupal. Depois teremos A Voz da Palavra, Ferramentas lúdicas do Contador de histórias, Contar com objetos e Sonoridades. As inscrições e reservas de vagas já estão abertas! É só mandar um e-mail para ilanacontadora@gmail.com, que envio mais informações e ficha de inscrição.

Três perguntas para Carlyle Popp

IMG-20170428-WA0009Catarinense radicado em Curitiba, Carlyle Popp lança seu primeiro romance,  O senhor da minha história (InVerso), um livro sobre a constante busca da própria identidade. O protagonista trafega pela capital paranaense, tendo sua infância marcada por dois episódios: a geada negra de 1975 e a epidemia de meningite. O personagem vive os desafios da adolescência, o primeiro amor e as amizades, em um romance de formação que vai até Madri, Paris e Londres. Advogado e professor, Carlyle Popp coordenou e escreveu nas antologias Instruções à Cortazar: homenagem de cronópios, famas e esperanças e Kakfa: uma metamorfose inspiradora.

SM – Quem é o diretor de teatro da vida do protagonista do romance?

CP – Este é o grande tema do romance: a busca da identidade. Salésio sempre foi seu herói. Um exemplo a ser seguido. Uma vida a reboque do outro. O protagonista não está contente com isto. Deseja mudar, sobretudo depois que passa a acreditar que algo há de errado com seu exemplo. Tudo principia com a inveja, sentimento que pouco a pouco se transforma em ódio, justificado pela decepção que vem a seguir. Ele ainda não sabe, mas passa a procurar defeitos no outro. Sofre com isto. O protagonista descobre que ter um modelo é importante, mas mais importante que isto é ter a si mesmo como paradigma.

Senhor-frente-_capa1SM – O personagem principal tem uma relação com o pintor Piet Mondrian que se reflete na capa do livro. É uma pista para a narrativa?

CP – A descoberta do quadro de Mondrian no consultório de seu médico se dá em uma fase em que o protagonista deseja trabalhar seus problemas, mas sequer acredita que os tem. Momento em que sua alternativa foi tentar esquecer o que o atormentava e simplesmente viver a vida. Viver sem compromissos com o amanhã e da forma mais solta possível. Até mesmo de maneira alienada. Os traços da obra de Mondrian parecem simples,  geométricos. Assemelham-se a algo que, talvez, qualquer um pudesse fazer. O protagonista pensa ao ver o quadro de Mondrian: “… vi na parede um quadro que poderia ter pintado. Geométrico. Branco com um quadrado ao centro. Qualquer um faria, pensei”. Em outra parte, raciocina, novamente no consultoria médico: “E aquele quadro de Mondrian  – tenho um em casa – (…)”. Construir sua própria história, ser protagonista de sua existência é como pintar um quadro de Mondrian, parece fácil, mas é imensamente difícil.

SM – De que forma Franz Kafka e Julio Cortázer, temas de seus livros anteriores, influenciaram sua literatura?

CP – A literatura de ambos tem pela menos um ponto em comum. Ambas se interessam pelo absurdo. Ficcionistas com larga imaginação trazem o incomum, o insólito para dentro de nossa vida. As nossas ações cotidianas são de certa forma absurdas, não todas evidentemente, pois se assim fosse, o mundo seria um caos. Muita maior do que já é, mundo onde supostamente as pessoas agem com racionalidade. O surreal faz parte de nossa vida naquilo que fazemos, pensamos e desejamos. Trazer isto ao cotidiano e demonstrar que o que nos cerca passa muito pelo fora de propósito é um grande mérito destes autores, verdadeiros protagonistas da ficção do século XX. Tento inspirar minha literatura na criatividade de ambos, ainda que prefira Cortázar a Kafka.

Três perguntas para Pedro Bandeira

pedro14Logo mais, Pedro Bandeira, um dos grandes nomes da literatura infantojuvenil brasileira, que já vendeu mais de 20 milhões de livros, lança seu primeiro título de ficção para adultos. Escrito a quatro mãos, com o médico Guido Carlos Levi, Melodia mortal (Fábrica 231/ Rocco) é um romance policial clássico e tem como personagem ninguém menos que Sherlock Holmes, investigando com recursos da medicina contemporânea as mortes de seis grandes compositores: Mozart, Tchaikovsky, Schumann, Bellini, Chopin e Beethoven. E quem conduz a narrativa é o fiel escudeiro do detetive mais famoso da literatura, John H. Watson. O livro será lançado hoje às 19h em São Paulo, na Livraria Cultura Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2.073). No dia 26 de abril, no mesmo horário, a sessão de autógrafos será no Rio de Janeiro, na Livraria da Travessa Botafogo (Rua Voluntários da Pátria, 97).

SM – Boa parte do público adulto que vai ler seu novo livro cresceu com suas histórias infantojuvenis. O que encontrar neste romance?

PB – A delícia de envelhecer é ver meus leitores, que eram pequenos nas décadas de 80 e 90, ainda serem meus queridos hoje com 25, 30 e até com 40 anos. Ainda estamos próximos, ainda trocamos e-mails e ainda nos vemos sempre que é possível. Na verdade muitos pediam histórias minhas mais adultas e somente agora pude atender a eles. Vai ser uma grande diversão!

Melodia mortalSM – Por que optou pelo universo de Sherlock Holmes?

PB – Este detetive é um clássico e todo mundo gosta dele. Revivê-lo, poder hoje inventar novas aventuras com ele, brincar com seu jeito britânico de atuar é fascinante para um escritor brasileiro, pois permite navegar no humor, usando até um jeito irônico de escrever, bem brasileiro.

SM – Como foi a experiência de escrever a quatro mãos?

PB – Meu parceiro é um velho amigo, um médico muito famoso e um amante da música. São dele os diagnósticos e as informações sobre música. Ele é também um grande piadista e criou um grupo de 12 médicos ingleses engraçadíssimos!

Três perguntas para Ondjaki

Captura de Tela 2017-04-07 às 17.24.13Primeiro romance do escritor angolano Ondjaki, lançado em 2002 – depois de um volume de poesia e outro de contos -, O assobiador ganha da Pallas sua primeira edição brasileira. A narrativa de essência fantástica traz uma pacata aldeia que tem sua rotina alterada com a chegada de um misterioso forasteiro, cujo assobio provoca reações epifânicas em quase todos os moradores. Com mais de 20 títulos, muitos traduzidos para idiomas como francês, espanhol, italiano, alemão, inglês, sérvio, sueco e polonês, Ondjaki venceu vários prêmios, o mais recente, o Prix Littérature-Monde 2016, na categoria literatura não francesa, pelo romance Os transparentes. O assobiador será lançado nesta segunda-feira, às 19h, na Livraria da Travessa de Botafogo (Rua Voluntários da Pátria, 97 – Rio de Janeiro).

SM – Embora tenha vários livros lançados no Brasil, O assobiador chega aqui 15 anos depois de sua publicação. O que você destaca da história desse forasteiro, que modifica a vida de uma pacata cidade, num mundo como o que vivemos hoje?

O – Penso que é um estória sobre emoções, sobre o papel que a sensibilidade joga na nossa vida quotidiana. O mundo da aldeia em nada se parece com o nosso mundo, que é acelerado e louco. Mas há uma dimensão humana que ainda nos pertence: o desejo de sonhar melhor, o desejo de sermos outros, as tentativas de aceitarmos que sentimos mais do que aquilo que nos autorizamos mostrar. É isso que o assobio (do livro) faz, permite às pessoas irem além de barreiras emocionais e sentimentais. Talvez fosse bom, para todos nós, na vida real, cruzarmo-nos com um assobio desses.

SM – Nesta edição, foi acrescentado um capítulo inédito. Você costuma modificar seus textos já publicados?

9788534704984O – Uma modificação tão radical, foi a primeira vez que me aconteceu. Decidi presentear o público brasileiro com esses pequenos diários, notas do autor e de uma personagem, a Dissoxi, que é uma mulher misteriosa e sobre a qual se sabe muito pouco. Eu mesmo sei pouco sobre ela, e ponho-me sempre a imaginar quem seria, para onde ela terá ido após esta aventura naquela aldeia. Foi isso que quis propor, que pudéssemos todos espreitar um pouco das suas anotações, da sua vida secreta, também para que isso me ajude, um dia, a escrever um pequeno livro sobre ela, sobre a sua vida, sobre a aldeia que é o seu lugar de origem. Espero que isso venha a acontecer em breve.

SM – Morando no Brasil, e vivendo diariamente as diferenças do português usado aqui e em Angola, como essas falas vêm interferindo na sua literatura?

O – Não noto interferências do português do Brasil na minha obra. Eu viajo muito, não fico enclausurado aqui no Brasil, portanto tenho permanente contacto com o português de Angola (que é a minha ferramenta de trabalho), também com a língua portuguesa de Portugal e até de outros lugares. Vejo a língua como um grande quintal, com esta diversidade que nos caracteriza, que eu adoro, que acho linda, e que deve continuar a receber contributos vivos de todas as geografias onde se sonha e se vive em língua portuguesa. A beleza da nossa língua é ter essa capacidade de ser a mesma e de ser “outra” todos os dias, em diferentes regiões geográficas mas também em distintas regiões afectivas.

Foto: Divulgação/ Michael Hughes

Três perguntas para Claudio Bojunga

2017-03-14-PHOTO-00009945Autor de JK – O artista do impossível, o jornalista e escritor Claudio Bojunga está lançando nova biografia, Roquette-Pinto – O corpo a corpo com o Brasil (Leya/ Casa da Palavra). Dessa vez, o retratado é seu avô, o médico, antropólogo e educador Edgard Roquette-Pinto, autor de Rondônia e criador da primeira estação de rádio do Brasil, a Rádio Sociedade, atual MEC. A sessão de autógrafos, na próxima quarta-feira na Livraria da Travessa do Leblon, terá bate-papo às 19h reunindo o autor, o historiador Alberto Venâncio Filho e o jornalista Arthur Dapieve.

SM – De que forma o trabalho de seu avô como médico, pesquisador e antropólogo influenciou na criação da estação de rádio?

CB – No livro explico que a primeira parte de sua vida foi dedicada ao estudo dos brasileiros. Todos os homens do seu tempo, mesmo quando viviam em outra época do ponto de vista da cultura material, como os nambiquaras, que conheceu na expedição da Comissão Rondon de 1912 à Serra do Norte.  Como médico residente frequentou a periferia miserável do Rio dos inícios do século XX. Era consciente do trágico abandono do brasileiro negro por uma elite falsamente republicana.  Como antropólogo, combateu o racismo de boa parte dessa mesma elite intelectual que havia introjetado os preconceitos da era colonial, considerando a miscigenação como degenerescência. Como professor acreditava firmemente que o brasileiro precisava ser educado, não substituído. O drama do Brasil, para ele, havia sido a escravidão, não a mestiçagem, a seu ver um trunfo ignorado. Embora hoje revalorizado pela globalização. Como seu lema era “crer e agir, nunca fiz nada sem crer, crendo nunca deixei de agir”, dedicou-se, em seguida, a educar. Muitos anos da cátedra. A partir dos anos 1920, mediante uma rádio educativa e cultural. A partir dos 30, um cinema educativo com Humberto Mauro. A fé no brasileiro fundamentou o esforço de educação de massa com as novas tecnologias da época.

SM – Qual foi sua maior descoberta durante as pesquisas para escrever a biografia?

CB – A intensidade do seu amor maduro pelo país, seu espírito público e a abrangência de seus interesses intelectuais. Como escreveu Drummond, sempre ornados de um fundo poético. Descobri quando acabei o livro que o Brasil não precisa de heróis, precisa de exemplos. Sobretudo nos dias de hoje, marcados pelo oportunismo e pela rapinagem do bem público.

SM – O lançamento é marcado também pelo centenário de uma obra emblemática de seu avô. Que lições você trouxe de Rondônia para seu livro?

CB – Cito a opinião do etnólogo Luís de Castro Faria sobre este clássico da Coleção Brasiliana: Rondônia foi um marco no estudo dos indígenas (…) De um lado ficaram os historiadores com suas listas de nomes tribais, os tupinólogos com suas etimologias, os indianistas românticos e os eruditos insensíveis; de outro, os que souberam conhecer e compreender o índio, os que foram capazes de estimá-lo. Rondônia assinala de forma brilhante uma mudança radical de atitudes em relação ao índio e, para a etnologia brasileira, o seu significado foi indiscutivelmente maior do que qualquer outra obra de autor estrangeiro, só tardiamente e em âmbito nem mais restrito vulgarizada entre nós.” Acrescento que foi Roquette-Pinto quem propôs chamar de Rondônia a região marcada pelas expedições de Cândido Mariano Rondon.

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Três perguntas para Frini Georgakopoulos

frini-047-copyA jornalista e blogueira Frini Georgakopoulos, do blog cheirodelivro.com, aborda de forma interativa em Sou fã! E agora? – Um livro para quem é apaixonado por histórias (Seguinte) sua experiência no mercado de livros, desde a organização de eventos literários a como escrever fanfiction, passando por cosplay, mídias sociais, blogs. O livro mostra como obras literárias nacionais e internacionais e audiovisuais podem transformar personalidades e o olhar sobre o mundo.

SM – O subtítulo já dá uma pista do que é o livro, mas vamos esclarecer: é para quem gosta de ler e para quem gosta de escrever?

FG – Acho que Sou fã! E agora? é para todo mundo. Já tive mães que vieram me perguntar se o meu livro as ajudaria a entender seus filhos (que fazem maratona de seriados no Netfllix e viram a noite lendo). Disse que esperava que sim! (risos). Já tive relatos de leitores que não são fãs, mas que passaram a ver com outros olhos os gêneros que cito, que não tinham se atentado para alguns elementos de narrativa e como eles têm impacto na leitura. E já tive leitores muito jovens que se apaixonaram pelo livro porque, segundo eles, os fez sentir que não estão sozinhos. Então acho que quem já curte ler e escrever terá na leitura de Sou fã! E agora?”uma companhia de quem o entende. Quem ainda não se descobriu leitor pode ter na leitura uma chave ou talvez um mapa para um mundo que não conhecem, mas que são convidados a explorar. O livro não é apenas “mais um livro interativo”, mas apresenta uma teoria sobre cultura de fã aplicada à realidade nacional com exercícios práticos de como exercer isso. Fãs não são somente os apontados como fanáticos. Fãs são aqueles tocados pela arte alheia e que abraçam esse impacto que um livro, um filme, uma música tem em sua vida para buscar uma forma de escapar da realidade ou de torná-la melhor. Meu livro já divertiu muita gente e também ajudou várias pessoas a planejarem aulas, monografias e teses de mestrado. Então, como todo livro, ele é para o leitor. O seu impacto vai depender da vivência de cada um.

SM – Você mediou debates com grandes nomes da literatura jovem, nacionais e estrangeiros. Tem alguma história curiosa que você viu ou viveu com algum deles e que não está no livro?

FG – Bem, não diria curiosa, mas foi engraçada. Aconteceu na Bienal do Livro de São Paulo, em 2016, quando lancei Sou fã! E agora?, então não chegou a entrar no livro. Durante o evento, mediei várias autoras internacionais e uma delas foi Lucinda Riley. A autora ama o Brasil, já veio várias vezes para cá e até escreveu um romance que se passa por aqui. Bem, antes de começar qualquer debate, sempre converso com os autores e contei a ela que pediria para os fãs fazerem perguntas, mas que não poderiam contar spoilers dos livros (ou seja, fatos-chave do desenrolar da trama). Lucinda (que me pediu para chamá-la de Lulu) concordou. Então ela disse que gostaria de tirar uma selfie com os fãs. Disse a ela que tudo bem, que do palco dava para tirar porque para descer ficaria perigoso, já que os fãs são muito empolgados e a autora estava com uma costela quebrada na ocasião. Tudo certo! Subimos ao palco e qual foi a primeira coisa que Lucinda fez? Desceu para tirar foto com os fãs! Foi uma correria, seguranças, pessoal da editora, uma zona! Comecei a falar para o pessoal ir com cuidado, que ela estava machucada e tal e todo mundo realmente seguiu a orientação. Foram cuidadosos com ela, tiraram fotos e ela voltou inteira para o palco. Nenhum fã soltou spoilers nas perguntas, mas adivinha quem soltou nas respostas? Lulu! Pois é! A gente conversa com os fãs, mas quem puxa nosso tapete é a autora! Claro que falei isso para ela. No microfone. Todos rimos e foi ótimo. 🙂

capaSM – O que de mais importante você aprendeu com os leitores?

FG – Que julgar um livro pela capa não é tão ruim quanto julgar uma pessoa pelo seu gosto literário. Quando se lida com fãs e quando se é um fã, levamos tudo para o pessoal. Insultar um livro ou um ator é como se falassem mal da nossa avó, sabe? Dói, revolta e instiga uma resposta. Mas temos que levar em conta que gostamos das mesmas coisas ou de coisas diferentes por motivos iguais ou diferentes. E isso é incrível! Não cabe a ninguém julgar ou insultar os outros, muito menos pelo seu gosto literário ou pela banda que mais curte ou pelo seriado favorito. Em mais de 10 anos de experiência com eventos voltados para fãs, aprendi isso com leitores, autores e profissionais de mercado. Aprendi a ser mais generosa e eu procuro passar isso adiante. Hoje, temos informação na palma de nossa mão, mas é preciso refletir e questionar e não apenas aceitar o que é dito. Então o que procuro fazer é me esforçar ao máximo para promover uma discussão de relevância entre leitores, mas de forma divertida. O foco é todos sairmos com mais conhecimento. Uma cabeça mais aberta é a estratégia ideal contra os “pré-conceitos”.

Foto: Divulgação/ Daniela Conti