Três perguntas para Andréa Zamorano

AndreaZamorano_ExtMorando em Lisboa há 25 anos, a carioca Andréa Zamorano estreia na literatura com A casa das rosas, romance trágico com um toque de fábula e outro de realismo fantástico, que tem como cenário a transição entre a ditadura e o regime democrático no Brasil, no início da década de 1980. O livro, que saiu em 2015 em Portugal e conquistou o prêmio Livro do Ano da Revista TimeOut Lisboa, chega agora ao Brasil pela Tinta Negra. Na Festa Literária Internacional de Paraty, Andréa vai participar de um bate-papo com José Eduardo Agualusa na Casa Amado e Saramago, no dia 27 de julho, às 15h. Logo depois, no dia 1º de agosto, às 19h, faz um lançamento no Rio de Janeiro, com apresentação de Sérgio Rodrigues, na Livraria da Travessa de Ipanema (Rua Visconde de Pirajá, 572). Em Portugal, Andréa é proprietária, junto com o marido, Rui, de vários restaurantes em Lisboa, entre eles, a badalada Hamburgueria Gourmet – Café do Rio. Também assina uma coluna com textos de ficção na revista digital Blimunda, da Fundação José Saramago. Aqui, ela fala sobre seu romance.

SM – Nascida no Rio de Janeiro e morando há tantos anos em Portugal, por que resolveu situar seu primeiro romance em São Paulo nos anos 1980, focando no período das Diretas Já?

AZ – Quando estava criando Eulália, a personagem central da trama, imaginei-a prisioneira inadvertida na sua própria vida, na sua casa. Como se ela soubesse e, ao mesmo tempo, não soubesse que estava asfixiada, encerrada numa redoma de luxo e autoritarismo exercido por um pai repressor, Virgílio. Na narrativa há um momento em que Eulália “ganha mundo”, foge da tirania, contudo, o mundo que encontrará está em ebulição é caótico e adverso. Só uma cidade enorme e avassaladora poderia, no meu ponto de vista, comunicar essa sensação de abandono e errância que Eulália experienciará na busca. Poderia ter sido Tóquio, Nova Iorque ou a Cidade do México, mas uma vez que decidi localizar a história no Brasil, São Paulo era a única cidade com a dimensão que procurava. Para além disso, São Paulo foi palco das maiores manifestações populares no período das Diretas Já. O que reforçou a ideia de localizar a ação na cidade. Tenho também de confessar que adoro São Paulo. Não sei dizer até que ponto isso influenciou a minha escolha mas, com certeza, terá tido o seu peso. A casa das rosas é, sobretudo, um romance que procura dar voz à liberdade. O período das Diretas Já era um clamor nacional. O Brasil precisava encontrar quem era, tal como Eulália, e o período das Diretas Já catalisava o desejo de mudança. Era uma voz uníssona de esperança que a população experimentava pela primeira vez em décadas. Eulália – assim como o Brasil de hoje – precisava dessa possibilidade, dessa confiança de que se lutarmos, podemos ser livres.

SM – Por que optou por misturar o português falado no Brasil e em Portugal?

AZ – Na verdade, não optei. Essa é a forma como falo hoje. Estando radicada há 25 anos em Lisboa, como é natural, fui agregando a variante que ouço todos os dias. O meu marido, as nossas filhas, os amigos e até os nossos clientes são maioritariamente portugueses, o meu falar acabou por se tornar aberto a essas influências, mais plural. Já não sou capaz de dissociar onde começa o Brasil e acaba Portugal. Tudo se fundiu em mim. Em Lisboa coexistem ainda outras variantes da língua que não só a portuguesa ou a brasileira. Há muitos cabo-verdianos, angolanos, moçambicanos, goeses; já para não falar nos emigrantes portugueses que, ao regressarem, trazem para a língua marcas da sua hibridização noutras culturas. Lisboa é uma efervescência onde está sempre borbulhando um bom caldo de diversidades linguísticas. Como resistir?

SM – De que forma seu dia a dia nos restaurantes, entre eles o Café do Rio, ajuda no seu trabalho como escritora? Como conciliar?

AZ – Se por um lado conciliar é a parte mais difícil, por outro é a que enriquece o processo criativo. Trabalho fundamentalmente no Café do Rio – para nossa sorte um restaurante bastante conhecido aqui em Lisboa – como tal, muito concorrido. O que faz com que tenhamos sempre movimento: ora estão a chegar os clientes, ora é um fornecedor com uma entrega que tem de ser descarregada e paga, ora um funcionário que requer mais atenção. Parece até que o trabalho não acaba nunca. Mas é no meio dessa azáfama toda que também vão surgindo as palavras, as frases soltas e as histórias. Vou prestando atenção no que as pessoas dizem, no que me contam; de quando em quando, até no que ficar por dizer. Porque a escrita tantas vezes é um lugar depois da fala mas outras é o lugar do não dito. Nessa dinâmica, uso o que ouço para tentar imprimir mais realidade às histórias que vou tentando contar. O Café do Rio é mesmo um manancial de oportunidades.

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Três perguntas para Lucas Viriato

Lucas Freitas_Foto Ulisses DumasUm grande sarau às 16h inaugura neste sábado, na Caixa Cultural do Rio de Janeiro (Av. Almirante Barroso, 25 – Centro), a exposição Poesia Agora. Criada para o Museu da Língua Portuguesa em 2015, exibe em seis salas trabalhos dos principais poetas em atividade no Brasil. A curadoria é de Lucas Viriato, criador do jornal de literatura Plástico bolha. A mostra, que pode ser conferida até 6 de agosto, de terça a domingo das 10h às 21h, com entrada franca, traz seis salas, com espaços interativos para os visitantes arriscarem seus próprios poemas. O espaço Poesia de rua reúne fotos tiradas pelo público, que poderão ser enviadas ao e-mail participepoesiaagora@gmail.com ou postadas nas redes socias em modo público com a hashtag #PoesiaAgora.

SM – Como foi a seleção para reunir trabalhos de mais de 500 poetas brasileiros e estrangeiros?

LV – Isso é um desdobramento natural da minha própria trajetória na literatura. Mas é claro que eu trabalhei com uma boa equipe, com pessoas que entendem muito de poesia, sobretudo a Yassu Noguchi. Fora isso, também contamos com a ajuda de pessoas de outros estados, que nos ajudaram a indicar poetas. Pessoas como Eduardo Lacerda, de São Paulo, Thiago Lobão, na Bahia, e Otávio Campos, em Juiz de Fora. Ou seja, poetas e editores que nos ajudaram a expandir a rede que já conhecíamos. Assim, pudemos sair um pouco do eixo Rio-São Paulo e trazer poetas de outras paragens para a exposição. Levantamos vários textos de cada autor, e tentamos escolher aquele que melhor se adequava ao conjunto da exposição. Foi uma tarefa prazerosa, porém muito trabalhosa. Mas no final valeu muito a pena.

SM – Além de mapear o cenário da poesia contemporânea, a exposição busca inspirar o público a criar seus próprios versos. Como tem sido a receptividade da mostra?

LV – A receptividade da mostra tem sido maravilhosa. Em São Paulo, fomos vistos por quase duzentas mil pessoas, e em Salvador, por mais de cinco mil. Só nos desafios poéticos de Salvador, recebemos quase 500 poemas. Os livros da nossa sala de leitura e escrita começam vazios e terminam abarrotados de poemas. Acho que o público se encanta com a proposta de liberdade de escrita da exposição. E foi exatamente essa a ideia que eu e André Cortez, o cenógrafo, quisemos passar: um espaço aberto para a criação. Agora no Rio, esperamos uma resposta ainda mais bacana, pois uma boa parte dos poetas da exposição naturalmente é da cidade. E a nossa página no Facebook não para de receber novos visitantes, querendo saber mais sobre o projeto.

SM – Poesia agora é um desdobramento do que você vem fazendo no Plástico bolha?

LV – Sim. Por um lado, os papéis de editor e curador se misturam, não deixa de ser um grande trabalho de pesquisa poética de formação de um corpus de poesia contemporânea em português. Estamos agora fechando a edição 38 do jornal, especial para o Poesia Agora no Rio. Nas últimas edições do jornal, temos trazido muito do conteúdo da exposição. É engraçado, pois representa uma “volta”: a pesquisa poética começa com o jornal, se desdobra em exposição, e retorna com o seu conteúdo para o jornal. A ideia não é que o trabalho seja totalizante, seria impossível mapear todos os poetas. No entanto, mantemos a pesquisa sempre em expansão, tentando manter os olhos e os ouvidos abertos à boa poesia.

Fotos: Divulgação/ Ulisses Dumas

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Três perguntas para Ilana Pogrebinschi

DSC02025 (3)Ilana Pogrebinschi ministra no início de junho o curso Formação de Contadores de História no Espaço Cultural Lago de Histórias, no Rio de Janeiro. Uma das fundadoras da Cia. de Teatro Atores de Laura, com diversos espetáculos premiados, ela usa suas experiência em exercícios práticos para desenvolver no contador a sintonia individual e em grupo, entre outras habilidades.

SM – Em tempos em que a tecnologia é tão forte, como fazer com que as crianças sejam seduzidas pela tradição de contar histórias?

IP – Ouvir e contar histórias fazem parte de algo muito natural, está em nossa essência como humanidade. Então não é preciso seduzi- las. Quando contamos com todo nosso coração,  tanto crianças como jovens ou adultos se encantam. Mesmo a gente não se imaginando mais sem a tecnologia, um dia já vivemos sem ela. Mas sem histórias… como viver?

SM – O que é mais importante para uma contação ser bem-sucedida?

IP – O contador deve escolher um repertório que se entusiasme e que se adeque bem à faixa etária, evento e local que ele vai encontrar. Mas o mais importante é que ele perceba que não se trata de uma apresentação, mas de um encontro. Ou seja, que não está separado daqueles que irão escutá-lo, mas que estão juntos participando de algo belo e importante. Uma vez escutei de uma contadora portuguesa que, quando ela vê as crianças que vão ouvir suas histórias, ela se imagina como uma mulher grávida onde todas aquelas crianças estão dentro de sua barriga!

SM – Como será o curso que você vai ministrar no Espaço Cultural Lago de Histórias?

IP – A Formação é composta de 5 módulos, encontro individual e da conclusão do curso, num total de 52 horas/aula. Os módulos podem ser feitos na ordem de preferência do participante, têm certificados individuais e apostilas. E cada módulo tem um conteúdo diferente. O primeiro, por exemplo, é A Preparação do Contador, onde serão  trabalhados exercícios práticos para que cada participante desenvolva a atenção, a presença, a escuta interna e externa, a coordenação, a contemplação, a musicalidade, a confiança e a sintonia, individual e grupal. Depois teremos A Voz da Palavra, Ferramentas lúdicas do Contador de histórias, Contar com objetos e Sonoridades. As inscrições e reservas de vagas já estão abertas! É só mandar um e-mail para ilanacontadora@gmail.com, que envio mais informações e ficha de inscrição.

Três perguntas para Carlyle Popp

IMG-20170428-WA0009Catarinense radicado em Curitiba, Carlyle Popp lança seu primeiro romance,  O senhor da minha história (InVerso), um livro sobre a constante busca da própria identidade. O protagonista trafega pela capital paranaense, tendo sua infância marcada por dois episódios: a geada negra de 1975 e a epidemia de meningite. O personagem vive os desafios da adolescência, o primeiro amor e as amizades, em um romance de formação que vai até Madri, Paris e Londres. Advogado e professor, Carlyle Popp coordenou e escreveu nas antologias Instruções à Cortazar: homenagem de cronópios, famas e esperanças e Kakfa: uma metamorfose inspiradora.

SM – Quem é o diretor de teatro da vida do protagonista do romance?

CP – Este é o grande tema do romance: a busca da identidade. Salésio sempre foi seu herói. Um exemplo a ser seguido. Uma vida a reboque do outro. O protagonista não está contente com isto. Deseja mudar, sobretudo depois que passa a acreditar que algo há de errado com seu exemplo. Tudo principia com a inveja, sentimento que pouco a pouco se transforma em ódio, justificado pela decepção que vem a seguir. Ele ainda não sabe, mas passa a procurar defeitos no outro. Sofre com isto. O protagonista descobre que ter um modelo é importante, mas mais importante que isto é ter a si mesmo como paradigma.

Senhor-frente-_capa1SM – O personagem principal tem uma relação com o pintor Piet Mondrian que se reflete na capa do livro. É uma pista para a narrativa?

CP – A descoberta do quadro de Mondrian no consultório de seu médico se dá em uma fase em que o protagonista deseja trabalhar seus problemas, mas sequer acredita que os tem. Momento em que sua alternativa foi tentar esquecer o que o atormentava e simplesmente viver a vida. Viver sem compromissos com o amanhã e da forma mais solta possível. Até mesmo de maneira alienada. Os traços da obra de Mondrian parecem simples,  geométricos. Assemelham-se a algo que, talvez, qualquer um pudesse fazer. O protagonista pensa ao ver o quadro de Mondrian: “… vi na parede um quadro que poderia ter pintado. Geométrico. Branco com um quadrado ao centro. Qualquer um faria, pensei”. Em outra parte, raciocina, novamente no consultoria médico: “E aquele quadro de Mondrian  – tenho um em casa – (…)”. Construir sua própria história, ser protagonista de sua existência é como pintar um quadro de Mondrian, parece fácil, mas é imensamente difícil.

SM – De que forma Franz Kafka e Julio Cortázer, temas de seus livros anteriores, influenciaram sua literatura?

CP – A literatura de ambos tem pela menos um ponto em comum. Ambas se interessam pelo absurdo. Ficcionistas com larga imaginação trazem o incomum, o insólito para dentro de nossa vida. As nossas ações cotidianas são de certa forma absurdas, não todas evidentemente, pois se assim fosse, o mundo seria um caos. Muita maior do que já é, mundo onde supostamente as pessoas agem com racionalidade. O surreal faz parte de nossa vida naquilo que fazemos, pensamos e desejamos. Trazer isto ao cotidiano e demonstrar que o que nos cerca passa muito pelo fora de propósito é um grande mérito destes autores, verdadeiros protagonistas da ficção do século XX. Tento inspirar minha literatura na criatividade de ambos, ainda que prefira Cortázar a Kafka.

Três perguntas para Pedro Bandeira

pedro14Logo mais, Pedro Bandeira, um dos grandes nomes da literatura infantojuvenil brasileira, que já vendeu mais de 20 milhões de livros, lança seu primeiro título de ficção para adultos. Escrito a quatro mãos, com o médico Guido Carlos Levi, Melodia mortal (Fábrica 231/ Rocco) é um romance policial clássico e tem como personagem ninguém menos que Sherlock Holmes, investigando com recursos da medicina contemporânea as mortes de seis grandes compositores: Mozart, Tchaikovsky, Schumann, Bellini, Chopin e Beethoven. E quem conduz a narrativa é o fiel escudeiro do detetive mais famoso da literatura, John H. Watson. O livro será lançado hoje às 19h em São Paulo, na Livraria Cultura Conjunto Nacional (Av. Paulista, 2.073). No dia 26 de abril, no mesmo horário, a sessão de autógrafos será no Rio de Janeiro, na Livraria da Travessa Botafogo (Rua Voluntários da Pátria, 97).

SM – Boa parte do público adulto que vai ler seu novo livro cresceu com suas histórias infantojuvenis. O que encontrar neste romance?

PB – A delícia de envelhecer é ver meus leitores, que eram pequenos nas décadas de 80 e 90, ainda serem meus queridos hoje com 25, 30 e até com 40 anos. Ainda estamos próximos, ainda trocamos e-mails e ainda nos vemos sempre que é possível. Na verdade muitos pediam histórias minhas mais adultas e somente agora pude atender a eles. Vai ser uma grande diversão!

Melodia mortalSM – Por que optou pelo universo de Sherlock Holmes?

PB – Este detetive é um clássico e todo mundo gosta dele. Revivê-lo, poder hoje inventar novas aventuras com ele, brincar com seu jeito britânico de atuar é fascinante para um escritor brasileiro, pois permite navegar no humor, usando até um jeito irônico de escrever, bem brasileiro.

SM – Como foi a experiência de escrever a quatro mãos?

PB – Meu parceiro é um velho amigo, um médico muito famoso e um amante da música. São dele os diagnósticos e as informações sobre música. Ele é também um grande piadista e criou um grupo de 12 médicos ingleses engraçadíssimos!

Três perguntas para Ondjaki

Captura de Tela 2017-04-07 às 17.24.13Primeiro romance do escritor angolano Ondjaki, lançado em 2002 – depois de um volume de poesia e outro de contos -, O assobiador ganha da Pallas sua primeira edição brasileira. A narrativa de essência fantástica traz uma pacata aldeia que tem sua rotina alterada com a chegada de um misterioso forasteiro, cujo assobio provoca reações epifânicas em quase todos os moradores. Com mais de 20 títulos, muitos traduzidos para idiomas como francês, espanhol, italiano, alemão, inglês, sérvio, sueco e polonês, Ondjaki venceu vários prêmios, o mais recente, o Prix Littérature-Monde 2016, na categoria literatura não francesa, pelo romance Os transparentes. O assobiador será lançado nesta segunda-feira, às 19h, na Livraria da Travessa de Botafogo (Rua Voluntários da Pátria, 97 – Rio de Janeiro).

SM – Embora tenha vários livros lançados no Brasil, O assobiador chega aqui 15 anos depois de sua publicação. O que você destaca da história desse forasteiro, que modifica a vida de uma pacata cidade, num mundo como o que vivemos hoje?

O – Penso que é um estória sobre emoções, sobre o papel que a sensibilidade joga na nossa vida quotidiana. O mundo da aldeia em nada se parece com o nosso mundo, que é acelerado e louco. Mas há uma dimensão humana que ainda nos pertence: o desejo de sonhar melhor, o desejo de sermos outros, as tentativas de aceitarmos que sentimos mais do que aquilo que nos autorizamos mostrar. É isso que o assobio (do livro) faz, permite às pessoas irem além de barreiras emocionais e sentimentais. Talvez fosse bom, para todos nós, na vida real, cruzarmo-nos com um assobio desses.

SM – Nesta edição, foi acrescentado um capítulo inédito. Você costuma modificar seus textos já publicados?

9788534704984O – Uma modificação tão radical, foi a primeira vez que me aconteceu. Decidi presentear o público brasileiro com esses pequenos diários, notas do autor e de uma personagem, a Dissoxi, que é uma mulher misteriosa e sobre a qual se sabe muito pouco. Eu mesmo sei pouco sobre ela, e ponho-me sempre a imaginar quem seria, para onde ela terá ido após esta aventura naquela aldeia. Foi isso que quis propor, que pudéssemos todos espreitar um pouco das suas anotações, da sua vida secreta, também para que isso me ajude, um dia, a escrever um pequeno livro sobre ela, sobre a sua vida, sobre a aldeia que é o seu lugar de origem. Espero que isso venha a acontecer em breve.

SM – Morando no Brasil, e vivendo diariamente as diferenças do português usado aqui e em Angola, como essas falas vêm interferindo na sua literatura?

O – Não noto interferências do português do Brasil na minha obra. Eu viajo muito, não fico enclausurado aqui no Brasil, portanto tenho permanente contacto com o português de Angola (que é a minha ferramenta de trabalho), também com a língua portuguesa de Portugal e até de outros lugares. Vejo a língua como um grande quintal, com esta diversidade que nos caracteriza, que eu adoro, que acho linda, e que deve continuar a receber contributos vivos de todas as geografias onde se sonha e se vive em língua portuguesa. A beleza da nossa língua é ter essa capacidade de ser a mesma e de ser “outra” todos os dias, em diferentes regiões geográficas mas também em distintas regiões afectivas.

Foto: Divulgação/ Michael Hughes

Três perguntas para Claudio Bojunga

2017-03-14-PHOTO-00009945Autor de JK – O artista do impossível, o jornalista e escritor Claudio Bojunga está lançando nova biografia, Roquette-Pinto – O corpo a corpo com o Brasil (Leya/ Casa da Palavra). Dessa vez, o retratado é seu avô, o médico, antropólogo e educador Edgard Roquette-Pinto, autor de Rondônia e criador da primeira estação de rádio do Brasil, a Rádio Sociedade, atual MEC. A sessão de autógrafos, na próxima quarta-feira na Livraria da Travessa do Leblon, terá bate-papo às 19h reunindo o autor, o historiador Alberto Venâncio Filho e o jornalista Arthur Dapieve.

SM – De que forma o trabalho de seu avô como médico, pesquisador e antropólogo influenciou na criação da estação de rádio?

CB – No livro explico que a primeira parte de sua vida foi dedicada ao estudo dos brasileiros. Todos os homens do seu tempo, mesmo quando viviam em outra época do ponto de vista da cultura material, como os nambiquaras, que conheceu na expedição da Comissão Rondon de 1912 à Serra do Norte.  Como médico residente frequentou a periferia miserável do Rio dos inícios do século XX. Era consciente do trágico abandono do brasileiro negro por uma elite falsamente republicana.  Como antropólogo, combateu o racismo de boa parte dessa mesma elite intelectual que havia introjetado os preconceitos da era colonial, considerando a miscigenação como degenerescência. Como professor acreditava firmemente que o brasileiro precisava ser educado, não substituído. O drama do Brasil, para ele, havia sido a escravidão, não a mestiçagem, a seu ver um trunfo ignorado. Embora hoje revalorizado pela globalização. Como seu lema era “crer e agir, nunca fiz nada sem crer, crendo nunca deixei de agir”, dedicou-se, em seguida, a educar. Muitos anos da cátedra. A partir dos anos 1920, mediante uma rádio educativa e cultural. A partir dos 30, um cinema educativo com Humberto Mauro. A fé no brasileiro fundamentou o esforço de educação de massa com as novas tecnologias da época.

SM – Qual foi sua maior descoberta durante as pesquisas para escrever a biografia?

CB – A intensidade do seu amor maduro pelo país, seu espírito público e a abrangência de seus interesses intelectuais. Como escreveu Drummond, sempre ornados de um fundo poético. Descobri quando acabei o livro que o Brasil não precisa de heróis, precisa de exemplos. Sobretudo nos dias de hoje, marcados pelo oportunismo e pela rapinagem do bem público.

SM – O lançamento é marcado também pelo centenário de uma obra emblemática de seu avô. Que lições você trouxe de Rondônia para seu livro?

CB – Cito a opinião do etnólogo Luís de Castro Faria sobre este clássico da Coleção Brasiliana: Rondônia foi um marco no estudo dos indígenas (…) De um lado ficaram os historiadores com suas listas de nomes tribais, os tupinólogos com suas etimologias, os indianistas românticos e os eruditos insensíveis; de outro, os que souberam conhecer e compreender o índio, os que foram capazes de estimá-lo. Rondônia assinala de forma brilhante uma mudança radical de atitudes em relação ao índio e, para a etnologia brasileira, o seu significado foi indiscutivelmente maior do que qualquer outra obra de autor estrangeiro, só tardiamente e em âmbito nem mais restrito vulgarizada entre nós.” Acrescento que foi Roquette-Pinto quem propôs chamar de Rondônia a região marcada pelas expedições de Cândido Mariano Rondon.

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