Os livros da vida de Leticia Sardenberg

IMG_4040É inverno todo o tempo no peito do protagonista de Coração de inverno, coração de verão (Zit), novo livro de Leticia Sardenberg, que trata do luto. A saudade do pai e da mãe espantaram qualquer resquício de primavera, outono ou verão do coração ainda pequeno do garoto, que só vê tristeza profunda, até que embarca numa viagem em busca de alguém que possa transformar essa paisagem. As ilustrações são de Alexandre Rampazo, que já assinou a arte de mais de 50 obras para crianças e jovens, e também escreveu algumas delas. Autora de Eu, meu cachorro e meus pais separados, que vendeu mais de 100 mil exemplares, Leticia conta aqui um pouco das leituras que marcaram sua vida.

SM – Qual o primeiro livro do qual você tem lembrança?

LS – Acho que o primeiro livro do qual tenho lembrança é Ou isto ou aquilo, da maravilhosa Cecília Meireles. Este livro teve um impacto muito forte na minha vida e na da minha irmã. Nós o líamos sozinhas, acompanhadas, em silêncio, em voz alta. A magia da literatura, sob a forma de poema, com sua musicalidade, delicadeza e poder de encantamento, está magistralmente eternizada neste livro.

SM – Que livro mais marcou a sua vida?

LS – Nossa, que pergunta dificílima! Não posso escolher apenas um, porque os livros que leio estão marcando minha vida de maneira indelével, e me transformando continuamente. Mas posso dizer que O menino do dedo verde, de Maurice Druon, Vidas Secas, de Graciliano Ramos, O diário de Anne Frank, de Anne Frank, e Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, me representam bem.

SM – O que você está lendo agora?

LS – Estou lendo Antes que aconteça, da Juliana Parrini, autora brasileira contemporânea, e Depois de você, da autora inglesa Jojo Moyes, também contemporânea. Ambas maravilhosas. Relendo Vermelho amargo, de Bartolomeu Campos de Queirós.

Foto: Divulgação/ Rodrigo Molina

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Os livros da vida de Ana Paula Maia

iA94pu0Sd3MBHNycwDOGzD3f7l4fCm86eI00Hizix7ka3qFVmZuAIQ397Z1ybtEYUpBBOcoMEaPnIyZ3Escritora e roteirista, Ana Paula Maia está lançando seu sexto romance, Assim na terra como embaixo da terra (Record). Sua literatura traz personagens que vivem realidades que em geral preferimos não enxergar, em narrativas que mostram de forma crua as sutilezas do dia a dia que eles carregam, em abatedouros, carvoarias, crematórios e aterros sanitários. Dessa vez, o cenário é uma colônia penal em vias de desativação. Aqui, ela fala um pouco sobre suas leituras marcantes.

SM – Qual o primeiro livro do qual você tem lembrança?

APM – Foi ainda na infância. A minha coleção de contos infantis. O meu favorito era “A chapeuzinho vermelho”, foi o que eu mais lia. E outra coleção de livros grandes das princesas: Branca de Neve, A Bela adormecida, Cinderella e Rapunzel. E eu tinha uma outra coleção de histórias não famosas e o que mais me marcou foi um conto em que a Morte era um personagem e levava a avó a menina, protagonista da história. Era bem triste.

SM – Que livro mais marcou a sua vida?

APM – Viagem ao centro da terra, de Julio Verne; “Noites brancas”, um conto de Dostoievski; O apanhador no campo de centeio, do J.D. Salinger; e O púcaro búlgaro, de Campos de Carvalho. Admito que há outros livros que me marcaram. Foram muitos. Sem contar os textos teatrais de Nelson Rodrigues.​

SM – O que você está lendo agora?

APM – Agora estou lendo duas escritoras argentinas: Siete casas vacias,  de Samantha Schweblin; e Los peligros de fumar en la cama, de Mariana Enriquez.

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Os livros da vida de Carpinejar

Carpinejar (11)Autor de mais de 40 livros de vários gêneros, com mais de 20 prêmios literários, comentarista de TV e colunista de jornais, Fabrício Carpinejar está lançando um novo volume de crônicas, Amizade é também amor (Betrand Brasil). O livro traz 122 textos, com reflexões de lições da infância como o banho de caneca ou os cadernos encapados pela mãe no início das aulas, à diferença que faz um ombro amigo para atravessar a fossa amorosa. “Comemoramos aniversário de namoro e de casamento e jamais lembramos de quando uma amizade nasceu”, diz ele, que inclui ainda duas crônicas emocionantes sobre a tragédia com o time da Chapecoense na Colômbia. Aqui, ele fala sobre suas leitura marcantes – e peculiares.

SM – Qual o primeiro livro do qual você tem lembrança?

C – A divina comédia, de Dante Alighieri, um livro dificílimo para uma criança. Eu tentava me apoiar nas gravuras de Gustave Doré,  da edição da Abril Cultural, para entender aquele inferno, os círculos… Eu desenhei os círculos do inferno na infância. Depois, foi muito Monteiro Lobato. A gente ainda tem a coleção que foi folheada, rabiscada, demolida pelos quatro irmãos.

SM – Que livro mais marcou a sua vida?

C – Vou falar um autor que está vivo e não é devidamente reconhecido, que é Vicente Franz Cecim, que me marcou muito. É um escritor da Amazônia, filosófico, reflexivo, enigmático, que cria lendas, uma espécie de Juan Rulfo de Belém do Pará. Li Os animais da terra, mas ele tem vários outros livros, como Silencioso como o paraísoÓ Serdespanto K O escuro da semente.

SM – O que você está lendo agora?

C – A biografia de Philip Roth (Roth libertado — Um escritor e seus livros, escrita por Claudia Roth Pierpont) e Múltipla escolha, de um cara que eu gosto muito, o chileno Alejandro Zambra. Me encontrei com ele na Flip e acho que li todos os livros dele que foram publicados aqui, Bonsai, Formas de voltar para casa, Meus documentos… Esse Múltipla escolha é como se fosse um vestibular para adultos.

Os livros da vida de Livia Garcia-Roza

Captura de Tela 2017-04-11 às 10.05.04Em seu novo romance, Meus queridos estranhos (Companhia das Letras), Livia Garcia-Roza investiga os dilemas de uma mulher após uma inesperada separação. Além de tentar entender os motivos do fim do casamento, a protagonista precisa lidar com a filha adolescente e as inseguranças de um novo amor. Psicanalista por 30 anos, Livia estreou na ficção com Quarto de menina, em 1995. De lá pra cá lançou vários romances, entre eles Meu marido e Milamor. Aqui, ela faz uma rápida revisão das leituras que a marcaram.

SM – Qual o primeiro livro do qual você tem lembrança?

LGR – Da minha infância o primeiro livro que me vem à lembrança é o de João Felpudo ou histórias divertidas com desenhos cômicos, do dr. Heinrich Hoffmann.

SM – Que livro mais marcou a sua vida?

LGR – Na sequência, o livro que mais me marcou foi O amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence.

SM – O que você está lendo agora?

LGR – Estou lendo atualmente a obra de Campos de Carvalho.

Os livros da vida de Suzana Vargas

IMG-20170306-WA0061Comemorando a maioridade da Estação das Letras, a escritora e professora Suzana Vargas lança o Instituto Estação das Letras, que nasce para ampliar nacionalmente projetos que já existiram na instituição que criou há 21 anos, como Rodas de Leitura e Caravana de Escritores, principalmente mobilizando a população de baixa renda com oficinas de criação e apreciação literária. A ideia é democratizar ainda mais mais o acesso à leitura e à escrita. A Estação acumula em sua trajetória mais de quatro mil eventos, cursos e oficinas, com programações culturais e aulas de criação literária em gêneros diversos, bem como de formação de mão de obra para o mercado editorial, a cargo de mestres como Cleonice Berardinelli, Marina Colasanti, Ferreira Gullar, Ana Maria Machado, Sérgio Sant´Anna, Ruy Castro e Moacyr Scliar. Para comemorar, Suzana Vargas promove nesta quinta-feira um encontro sobre os universos da criação literária com o escritor Cristóvão Tezza, na Fundação Casa de Rui Barbosa. Aqui, ela compartilha um pouco sobre suas leituras marcantes.

SM – Qual o primeiro livro do qual você tem lembrança?

SV – O primeiro livro da minha vida não foi apenas um, foram vários. Morando no interior do Rio Grande do Sul, numa quase vila, sem cinema ou televisão, líamos muito. Lembro do volume de poesias de O mundo da criança, uma edição de capa vermelha com ilustrações aquareladas belíssimas e autores brasileiros e estrangeiros traduzidos. Memorizei e sei até hoje alguns poemas. Na adolescência, também me deparei com uma antologia de poetas estrangeiros maravilhosa… Eu tinha já uns 10, 11 anos e ficava lendo em tradução autores como Lorca, T.S.Eliot, Baudelaire ou Rilke, para ficar em alguns. Todos com tradutores de primeira como Machado de Assis, Guilherme de Figueiredo ou Geir Campos. Livro de poemas do Lorca eu li inteiro e a poesia ganhou espaço na minha vida. A prosa eu conheci no Tesouro da juventude (enciclopédia).

SM – Que livro mais marcou a sua vida?

SV – Dom Quixote é, seguramente , o livro que também abriu minha mente para o humor. Com 15 anos comecei a ler em espanhol (eu morava na fronteira com o Uruguai). Claro que o livro integral eu vim ler muito mais tarde. Mas a partir dele comecei a pensar em literatura como diversão. A cena que mais me marcou naqueles inícios era a do Quixote tomando sopa de canudinho através da panóplia armadura, na estalagem que ele chamava de palácio, promovendo o estalajadeiro a rei. Esse livro é completo mas só tive noção mais plena do seu significado na faculdade e quando lecionei Cultura Ibérica por algum tempo.

SM – O que você está lendo agora?

SV – Leio diversos livros ao mesmo tempo, alguns por questões profissionais e outros por prazer. Leio a biografia de Frei Betto (Frei Betto – Biografia, de Américo Freire e Evanize Sydow), lançada recentemente. Acabei de ler Antes que seque, contos da Marta Barcellos; O regresso, da Lúcia Bettencourt; e A vida não tem cura, do Marcelo Mirisola.

Os livros da vida de Domício Proença Filho

_GUI7475wProfessor de literatura brasileira e língua portuguesa, crítico literário e poeta, em seu segundo mandato como presidente da Academia Brasileira de Letras, Domício Proença Filho está lançando novo livro, Leitura do texto, leitura do mundo (Rocco). Dividida em dez partes – “Conhecimento, comunicação e linguagem”; “Conhecimento, cultura e comunicação”; “Linguagem, língua e signo”; “O processo linguístico da comunicação”; “Enunciado, discurso e texto”; “Língua, discurso e estilo”; “Literatura, linguagem e língua”; “Literatura, leitura e interpretação textual”; Caminhos da leitura; e “Leitura de textos” -, a obra reflete o diálogo mantido nas últimas décadas com mais de 20 mil professores e 10 mil profissionais de outras áreas. Quinto ocupante da cadeira 28, eleito em 23 de março de 2006, ele tem 65 livros publicados. Nesta terça-feira, estará em Paris, lançando Capitou mémories posthumes (Envolume Éditions), história de além-túmulo, em que a personagem de Dom Casmurro, acusada de ocultação e adultério pelo marido, finalmente revela sua versão dos acontecimentos. Aqui, num bate-pronto, Domício Proença Filho fala sobre suas leituras marcantes.

SM – Qual o primeiro livro do qual você tem lembrança?

DPF – O primeiro livro  de que eu tenho  lembrança era um Manual de Ciências Naturais Ilustrado que me foi presenteado por meu pai.

SM – Que livro mais marcou a sua vida?

DPF – Não foi um livro, foram três, pela ordem: Cazuza, de Viriato Correa; As aventuras de Tibicuera, de Erico Verissimo; e Iracema, de José de Alencar

SM – O que você está lendo agora?

DPF – Estou lendo as provas do meu próximo livro, Muitas línguas, uma língua, sobre o português brasileiro, que deverá sair no segundo semestre.

Foto: Guilherme Gonçalves/ABL

Os livros da vida de Luís Henrique Pellanda

16833331_10206876661353970_1026240758_oO escritor e jornalista curitibano Luís Henrique Pellanda nos coloca dentro de sua cidade em Detetive à deriva (Arquipélago), com crônicas inspiradas nas ruas e janelas da capital paranaense. Na orelha do livro, Alvaro Costa e Silva, o Marechal, diz que o leitor se torna íntimo de lugares que talvez nunca tenha visitado e afirma: “Esse movimento de sair de casa tem tudo a ver. Ao contrário da tendência atual de transformar o espaço da crônica nos jornais, revistas e sites em tribuna de opinião, Pellanda prefere a rua como lugar de observação e inspiração.” Autor ainda de O macaco ornamental, Nós passaremos em branco e Asa de sereia, aqui ele conta um pouco sobre suas leituras e os caminhos que vem percorrendo.

SM – Qual o primeiro livro do qual você tem lembrança?

LHP – Deve ter sido uma das várias enciclopédias que meus pais, que não vinham de famílias leitoras, compraram para os filhos, no início dos anos 1970. A biblioteca da minha infância era enciclopédica, e não literária. Aprendi a ler nesses livros muito ilustrados sobre zoologia, botânica, geografia. Começou aí. Depois, ainda menino, passei a ler autores como Luis Fernando Verissimo e Sergio Porto, via Círculo do Livro. Os cronistas brasileiros foram a minha “estreia” na literatura. E também os romances policiais, em geral os da Agatha Christie, em papel-jornal, que eu comprava na banquinha diante da igreja do Capão Raso, bairro curitibano onde nasci. Foram esses dois gêneros inaugurais, digamos assim, a crônica e o policial, que juntei ao compor meu livro mais recente, Detetive à deriva.

SM – Que livro mais marcou a sua vida?

LHP – Aos 15 anos, li A montanha mágica, de Thomas Mann, pela primeira vez. Foi um terremoto. Eu vinha de leituras felizes, mas muito românticas, de Sartre, Camus e Kafka, de clássicos antigos, de poetas e prosadores brasileiros da virada do século. E A montanha mágica me desestruturou. Marcou o início da minha fase “adulta” de leitor. Foi realmente uma iniciação, o reconhecimento de uma imensa ignorância pessoal em relação ao mundo, à história, à cultura, às práticas sociais. Mann me ensinou a ler, a reler, a estudar, a pensar todos os lados de uma questão. Ele me ensinou a levar a sério quem discordava de mim. Quanto ao livro em si, ele foi muito importante na época de sua publicação, o período entreguerras na Alemanha, e continua relevante hoje, quase cem anos depois, quando vivemos um novo momento de grande instabilidade política e econômica, de polarização ideológica, de irritação e medo generalizados.

SM – O que você está lendo agora?

LHP – Estou lendo Milênio, do genial catalão Manuel Vázquez Montalbán, último livro da série protagonizada pelo detetive Pepe Carvalho, e que foi publicado em 2004, pouco depois da morte do autor. É um catatau “finíssimo”, sentimental e irônico ao mesmo tempo. Fugindo de assassinos, Carvalho e seu assistente Biscuter dão a volta ao mundo, passando por Itália, Grécia, Egito, Afeganistão, Turquia, Israel, Argentina, Brasil. O giro da dupla — que viaja sob os pseudônimos de Bouvard e Pécuchet — serve de pretexto para a análise de vários imbróglios contemporâneos (com os quais ainda teremos que nos entender): as paixões separatistas, o ódio aos imigrantes e refugiados, a especulação imobiliária, as consequências da globalização, a ascensão de novas formas de fascismo. Aliás, também estou lendo Globalização, democracia e terrorismo, de Eric Hobsbawn, e Medo, reverência, terror, de Carlo Ginzburg, ambos livros de ensaios.